Há certos amanheceres que, apesar da promessa de luz, trazem consigo um gosto amargo, como um brinde celebrado com vinho adulterado. A notícia da Venezuela, com a líder opositora María Corina Machado expressando confiança no ‘plano’ do presidente Donald Trump para a realização de eleições, e com o presidente Nicolás Maduro já capturado pelo exército dos Estados Unidos, acende um farol de alerta para todos aqueles que se importam com a verdadeira liberdade de um povo. Anuncia-se uma ‘libertação do comunismo’ e uma ‘transição para a democracia’, mas a sombra da intervenção externa paira sobre a cena como uma águia sobre seu território de caça.
Não se pode ignorar a complexidade do regime deposto, nem a aspiração legítima de muitos venezuelanos por um governo justo e representativo. O clamor por eleições livres e a busca por dignidade são reais e devem ser ouvidos. Contudo, a captura de um chefe de Estado soberano por uma potência estrangeira, mesmo que seu governo fosse tirânico ou ilegítimo aos olhos de muitos, não é um mero detalhe na engrenagem da história. É um ato de força que viola um princípio basilar da ordem internacional: a soberania das nações e o direito inalienável de um povo à sua autodeterminação. A Doutrina Social da Igreja, ao defender a inviolabilidade dos direitos das comunidades políticas, insiste que cada nação tem o direito de decidir seu próprio destino, livre de coações externas.
O problema não está na busca pela democracia, mas no método de sua imposição. Quando a ‘libertação’ é orquestrada e executada por forças militares estrangeiras, o que se obtém não é a eclosão espontânea da vontade popular, mas a rearrumação de uma casa feita com ferramentas alheias. Por mais que a oposição venezuelana agradeça ao governo americano e celebre a perspectiva de eleições, a fonte da nova ordem política já nasce turva. A legitimidade de um governo não pode ser plantada como uma semente estrangeira em solo nacional sob a mira de um fuzil externo. Ela deve brotar da terra do próprio povo, cultivada por suas mãos, alimentada por suas aspirações genuínas. O grande Pio XII, ao distinguir o ‘povo’ da ‘massa’, já advertia sobre os perigos de uma sociedade onde a autonomia e a participação genuína são esmagadas pela manipulação, seja ela interna ou externa.
A retórica de que ‘as Américas se libertarão do comunismo e da ditadura pela primeira vez na História’ é um tropo potente, mas perigoso. Pode-se até querer o fim de um regime opressor, mas a forma como se busca esse fim nunca é neutra. Há uma sanidade irônica que nos escapa quando se fala em ‘libertar’ uma nação violando sua própria soberania. É como o paradoxo de querer impor a liberdade pela força. A justiça internacional, tal como ensinada por São Tomás de Aquino, exige que os meios sejam proporcionais e éticos aos fins. O bem das eleições livres, por mais desejável, não pode justificar a instauração de um precedente que desestabiliza a ordem jurídica entre as nações e abre a porta para que qualquer potência mais forte ‘reordene’ o quintal alheio sob pretextos convenientes.
Assim, ao invés de uma transição para uma democracia autêntica e soberana, o que se avista é uma vitória que carrega o peso de sua própria contradição. A gratidão da oposição a uma intervenção estrangeira, enquanto compreensível sob o calor da esperança, não apaga a mancha no pavilhão da soberania. A verdadeira liberdade não floresce em solo plantado à força, mas na terra cultivada pela mão soberana de um povo que se quer senhor do seu próprio destino.
Fonte original: GZH
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.