Quando o teto da casa começa a ruir, a primeira tarefa é escorá-lo e buscar reparos, não disputar a autoria da telha que cedeu ou a cor do cimento que a prende. A moção de repúdio apresentada na Assembleia Legislativa da Bahia contra a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras levanta uma questão essencial: estamos olhando para o desabamento ou para a etiqueta na ferramenta? O calor da disputa política, que viu deputados se digladiando entre repúdio e aplausos a Donald Trump, ameaça obscurecer a urgência e a natureza perene do inimigo que nos assola.
É compreensível que um Estado zele por sua soberania, por sua autonomia de decidir quem e como combate em seu território. Ninguém deseja ver a própria nação tutelada ou usada como palco de interesses alheios. A preocupação de que uma classificação externa possa ser um cavalo de Troia para intervenções indesejadas é, em princípio, legítima. O Brasil não é colônia de ninguém, e a história de intervenções estrangeiras no continente é um amargo lembrete. No entanto, a defesa da soberania não pode se converter em um escudo para a inação ou em um pretexto para o isolamento frente a ameaças que não respeitam fronteiras nem jurisdições.
O Magistério da Igreja, em sua sabedoria social, sempre salientou que a ordem dos bens deve prevalecer. A dignidade da pessoa humana e a segurança da vida comum, do povo, são bens irrenunciáveis que precedem formalismos abstratos. Pio XII nos alertou sobre a diferença entre “povo” e “massa”: o povo é um corpo vivo, com laços sociais e instituições, enquanto a massa é uma agregação passiva e desorganizada, facilmente manipulável e vulnerável. O crime organizado, com sua lógica de intimidação, violência e controle territorial, transforma o povo em massa, minando as bases da liberdade ordenada que Leão XIII tanto defendia. É uma força que opera para desorganizar a própria soberania interna, subjugando comunidades inteiras.
PCC e CV não são apenas “organizações criminosas comuns”. Suas táticas – a violência indiscriminada, o controle de territórios, a subversão da ordem pública, o temor que impõem à população e às instituições – carregam uma semelhança inquietante com os métodos terroristas, mesmo que seus fins últimos sejam primordialmente o lucro. Não é uma questão de ideologia, mas de impacto. É a sanidade contra a loucura lógica das abstrações: enquanto se discute se o nome é “terrorista” ou “crime organizado transnacional”, a ameaça real continua a expandir seus tentáculos, a lavar dinheiro em solo estrangeiro, a fortalecer-se com o tráfico de armas e drogas. Negar a semelhança de seus métodos ao terrorismo, por uma questão de nomenclatura, é como discutir a cor da fumaça enquanto a casa queima.
A verdadeira justiça exige que o Estado se dote de todos os meios lícitos e eficazes para proteger seus cidadãos. A fortaleza demanda que se enfrente o inimigo com a clareza necessária, sem eufemismos ou desvios retóricos que sirvam a disputas políticas menores. Rejeitar uma classificação que, na prática, pode destravar ferramentas essenciais de combate – como o congelamento de ativos, o compartilhamento aprimorado de inteligência e sanções financeiras em escala internacional – por uma defesa puramente formal da soberania, é um risco à segurança nacional. A cooperação entre Estados, em face de um inimigo que já transcende fronteiras, não é submissão, mas uma extensão do dever de proteção ao próprio povo.
O Brasil não precisa ser “quintal” de ninguém, nem “vassalo” de governo estrangeiro algum. Pelo contrário, a altivez de uma nação soberana se manifesta justamente na capacidade de usar sua inteligência e discernimento para firmar parcerias estratégicas que fortaleçam sua segurança interna e externa, sem ceder um milímetro de sua autodeterminação. A moção de repúdio, no calor da batalha ideológica, corre o risco de desviar o foco da estratégia concreta para proteger a vida e o patrimônio dos brasileiros.
A soberania, afinal, não reside apenas na negação de um rótulo externo, mas, sobretudo, na capacidade concreta de uma nação de defender seus filhos e sua ordem contra as forças que ameaçam desintegrá-la de dentro para fora. É preciso construir pontes de cooperação quando elas se mostram eficazes, sem que isso signifique abdicar da primazia da lei nacional.
Fonte original: Jornal Grande Bahia (JGB)
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.