Há um paradoxo silencioso na matemática do orçamento público: as cifras mais vultosas muitas vezes não se destinam àquilo que se vê e se toca, mas ao que se supõe ser o motor invisível da gestão. Em Salvador, a Secretaria Municipal de Governo (SEGOV) desponta com R$ 108,77 milhões para 2026, um volume que, à primeira vista, parece descolado de qualquer entrega concreta ao cidadão. No entanto, é precisamente nesse aparente paradoxo que reside a complexidade e, muitas vezes, a fragilidade da governança: o custo da coordenação.
Não se trata aqui de negar a legitimidade de um centro nervoso que orquestra a máquina pública. Uma administração municipal do porte de Salvador, com um orçamento de R$ 14,9 bilhões, precisa, sem dúvida, de um ponto de convergência que articule secretarias, alinhe prioridades e dialogue com o legislativo. A SEGOV, neste sentido, é apresentada como o maestro dessa complexa orquestra, essencial para que as políticas finalísticas – da Defesa Civil à Reparação – não desafinem ou colidam. Sem uma coordenação robusta, os bilhões da arrecadação poderiam se esvair em iniciativas isoladas, sem sinergia ou impacto real.
Contudo, a música dessa orquestra tem seu preço, e ele não pode ser obscuro. Quando 92,1% do orçamento da SEGOV se concentra em “Pessoal e Encargos” e “Manutenção Técnica/Administrativa”, sem que a sociedade tenha acesso a um detalhamento minucioso de cargos, contratos, serviços e, sobretudo, dos resultados produzidos, a legítima preocupação se instala. É um contraste gritante ver um órgão de coordenação com quase o triplo do orçamento acumulado de uma vice-governadoria estadual em três anos, ou superando em muito pastas vitais como a Defesa Civil e a Secretaria de Reparação, que lidam com emergências e reparações sociais.
A questão central não é, portanto, a mera existência da SEGOV, mas a justiça e a veracidade na alocação e prestação de contas desses recursos. A Doutrina Social da Igreja, particularmente desde Leão XIII e Pio XI, tem alertado contra a tentação de uma centralização excessiva ou de uma burocracia que se torna um fim em si mesma. O Estado, em todas as suas esferas, existe para o bem da cidade, e não o bem da cidade para a manutenção de estruturas opacas. Uma secretaria que gerencia a governabilidade deve, por dever de ofício e moralidade pública, ser um exemplo de clareza e eficiência. O volume financeiro, que deveria servir à gestão da cidade, não pode se transformar em um enigma fiscal que alimenta suspeitas e enfraquece a confiança cívica.
Chesterton, com sua perspicácia, diria que o problema não é a loucura, mas a lógica que perdeu o contato com a realidade. Aqui, a lógica de uma secretaria de articulação política é, em si, compreensível; a loucura surge quando essa lógica se autoalimenta, criando estruturas imensas cujo valor intrínseco se torna inescrutável aos olhos dos cidadãos pagadores de impostos. É preciso que essa coordenação vital demonstre, em painéis públicos e contratos por resultado, como cada milhão investido na articulação se reverte em melhoria concreta na educação, na saúde, na segurança – nas pontas que de fato impactam a vida das pessoas.
A verdadeira governabilidade não se mede apenas pela capacidade de manter a coesão política, mas pela probidade na gestão e pela clareza na prestação de contas. A subsidiariedade nos ensina que as decisões devem ser tomadas no nível mais próximo possível do cidadão, e isso exige que os mecanismos centrais de governo, por mais estratégicos que sejam, operem com um grau de transparência que os legitime perante aqueles a quem servem. Não basta a promessa de uma gestão eficaz; é imperativo que se apresente a evidência factual de sua eficácia.
Fonte original: Jornal Grande Bahia (JGB)
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.