A política, em seu ritmo mais frenético, assemelha-se por vezes a um palco onde os atores trocam de máscara e papel ao sabor do vento, e onde a lealdade, mais que princípio, é um ativo negociável em cada nova temporada. No Ceará, o que se vê nas articulações para 2026 desenha não apenas um mapa eleitoral, mas o próprio retrato de uma atividade pública que, ao invés de se ordenar aos bens intrínsecos de uma comunidade política, se dobra ao balé das ambições pessoais e dos arranjos de cúpula. As recentes declarações de Cid Gomes, ora cogitando o Senado, ora realinhando com Camilo Santana, num movimento que se lê como tático para “derrotar” o próprio irmão Ciro, são menos um sinal de estratégia e mais um sintoma de uma desordem subjacente.
Essa febril movimentação, onde candidaturas são “rifadas” e acordos de longo prazo são costurados à sombra, levanta preocupações legítimas que transcendem o mero espetáculo das urnas. O foco incessante em rearranjos eleitorais desvia a energia e os recursos do Estado de uma agenda substantiva de políticas públicas, essenciais para a governabilidade e o desenvolvimento a longo prazo. Além disso, a preeminência do personalismo das lideranças sobre as estruturas partidárias e as propostas ideológicas dilui a clareza para o eleitorado, que vê as plataformas se fundirem e se desintegrarem ao sabor de interesses individuais de poder, e não por uma convergência programática ou ideológica genuína.
Para a Doutrina Social da Igreja, a política não é um jogo de soma zero, mas uma vocação ao serviço da vida em comum, onde a autoridade se legitima pela ordenação ao bem da cidade. A instrumentalização de partidos e a flexibilidade ideológica em nome de ganhos eleitorais imediatos corroem a confiança pública e fragilizam o tecido social. Quando os corpos intermediários da sociedade são subjugados ou os projetos de líderes emergentes são descartados em nome de acordos de cúpula, como se observa na capacidade de “rifar” candidaturas menores, a vitalidade democrática se esvai. Isso desrespeita a subsidiariedade, princípio que exige fortalecer o que está perto e não esmagar os corpos vivos da sociedade em nome de arranjos centralizados. A assimetria de poder entre quem detém a máquina pública e quem busca espaço sem ela torna-se, então, não um desafio a ser superado por mérito, mas uma barreira quase intransponível.
A justiça, neste cenário, exige clareza e veracidade. O eleitorado tem o direito de discernir propostas, princípios e projetos, e não apenas o emaranhado de alianças e rupturas que se desdobram aos seus olhos. A política de bastidores, onde a fala pública de um senador se “corrige” para alinhar-se ao governismo, ou onde “traições” passadas e presentes são a moeda corrente, depõe contra a dignidade da ação pública. O apego cego ao poder, seja ele familiar ou partidário, eclipsa a possibilidade de uma verdadeira ordem política, aquela que São Tomás de Aquino veria como a disposição reta das coisas para o fim último: o desenvolvimento humano integral.
É a sanidade contra a loucura de uma política que se esvazia de projeto para viver de manobra: a obsessão pelo poder como fim em si mesmo, que Chesterton tão bem satirizaria, desfaz o sentido mesmo da existência da esfera pública. O verdadeiro avanço não reside na habilidade de manobrar mais rapidamente que o adversário, mas na capacidade de construir algo duradouro, algo que resista à próxima onda de realinhamentos. A persistência de Ciro Gomes, ainda que isolada, ou a inquietação de parcelas do PT local, indicam que a coesão desse novo bloco é, na melhor das hipóteses, uma aliança tática de ocasião, e não uma convergência programática duradoura.
Diante de tal espetáculo de inconstância e pragmatismo nu, a grande questão para o Ceará e para o Brasil não é quem vai se sentar na cadeira principal em 2026, mas se a cadeira estará ancorada em um projeto de futuro ou flutuará à deriva nas marés da conveniência. Que a eleição não seja apenas um ajuste de contas entre famílias e fações, mas uma oportunidade para que o povo, e não a massa manobrada, possa escolher com clareza os rumos de sua história. A esperança de um futuro mais justo reside na solidez dos princípios, não na fluidez das promessas.
Fonte original: Jornal do Cariri
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.