Quando a política se reduz a mero espetáculo, o solo fértil do debate cívico vira picadeiro. De um lado, o frenezi da “política do caos”, um marketing de emergência que invade hospitais, ridiculariza servidores e lança mão de vídeos de trinta segundos para capturar a atenção. De outro, a promessa de uma abordagem “proto-agonista”, que busca transformar o “ruído das existências marginalizadas em linguagem política legítima”, focando em demandas concretas como tarifa zero e congelamento de aluguéis. A tese, louvavelmente, aponta para uma fadiga do eleitorado com a contínua algaravia. Mas é preciso discernir se o remédio não incorre, por outros meios, na mesma superficialidade que condena.
A “política do caos” não é apenas uma tática falha ou um estilo desgastado; é, muitas vezes, uma manifestação virulenta de profundas fissuras sociais, daquele vácuo deixado quando a ordem justa e os corpos intermediários da sociedade se esgarçam. É o grito (por vezes legítimo em sua origem, ainda que distorcido em sua forma) de quem se sente sem representação, sem voz, e busca um inimigo claro em tempos de incerteza. Reduzir essa dinâmica complexa a “marketing de emergência” é subestimar a sua persistência e sua capacidade de mobilizar paixões. A demagogia prospera não só pela manipulação, mas pela ausência de alternativas substantivas que falem à alma popular. Pio XII já nos advertia sobre a distinção entre o povo, que se organiza em comunidades e aspira ao bem comum, e a massa, amorfa e facilmente manipulável.
A proposta “proto-agonista”, com sua ênfase em “existências marginalizadas” e “linguagens adaptadas ao ecossistema digital”, contém uma intuição valiosa: a política deve, sim, dar voz aos que “não têm parte”, como ensina a Doutrina Social, que defende a opção preferencial pelos pobres. Contudo, essa via corre o risco de se tornar uma nova forma de tecnocracia ou de sectarismo, se não for enraizada em princípios universais de justiça e na capacidade de construir pontes além dos nichos identitários. A campanha vitoriosa de Zohran Mamdani em Nova York, por exemplo, focou em demandas trabalhistas concretas, um exemplo de ação subsidiária que se aproxima do espírito da DSI. Mas a escalabilidade de tais sucessos localizados para um país continental como o Brasil, com sua diversidade abissal, impõe um desafio de agregação que a mera soma de pautas setoriais dificilmente suprirá.
A política, para ser verdadeira, exige mais do que a destreza em decifrar algoritmos ou a habilidade em “viralizar” demandas. Exige a veracidade dos fatos e a humildade de reconhecer que o bem comum é mais do que a mera satisfação de grupos específicos, por mais legítimas que sejam suas reivindicações. A “linguagem política legítima” não é apenas aquela que emerge do ruído de existências marginalizadas, mas aquela que é permeada pela razão reta e pela verdade moral, capaz de dialogar com todos os segmentos da sociedade e de apresentar soluções que visem ao todo. Chesterton, em seu paradoxo sobre a sanidade, diria que o maior perigo não é a loucura evidente, mas a lógica que se torna insana em sua própria rigidez abstrata, perdendo o senso de proporção e a conexão com a realidade orgânica.
É por isso que a luta contra a “política do caos” não pode ser vencida com um “marketing” mais sofisticado, mas com a restauração de alicerces morais sólidos. É preciso fortalecer os corpos intermediários, a família, as associações livres, o cooperativismo, a propriedade difusa, como nos ensina Leão XIII. É preciso cultivar as virtudes da honestidade, laboriosidade e temperança, que formam o caráter do povo e não da massa. A verdadeira estratégia eleitoral para 2026, ou para qualquer tempo, não reside na tática digital da moda, mas na paciente edificação de uma cultura cívica fundada na justiça social e na liberdade ordenada, onde a voz do povo emerge não do ruído, mas da consciência.
A política não se faz no espetáculo da fumaça e do ruído, mas na paciente edificação da verdade e da justiça, regando a terra com a veracidade dos fatos e a humildade de quem serve o povo, e não a massa.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.