O ingresso na mão para um show que, quase um mês e meio após a abertura das vendas, ainda ostenta lugares de meia-entrada em todos os setores – inclusive na Pista Premium. Eis a imagem que desvela um dos paradoxos mais fascinantes e, por vezes, dolorosos da indústria cultural contemporânea: o crepúsculo da euforia nostálgica. Os Jonas Brothers, que outrora arrebatavam multidões e enchiam estádios com uma velocidade estonteante, agora enfrentam um público que, embora fiel, já não arde na mesma febre da escassez. Não é que o amor tenha sumido, mas a magia da raridade, o “MEU DEUS, FINALMENTE!!!!!” do primeiro reencontro, transmutou-se num mais calmo “ai que legal que eles voltaram!”, como bem notaram os influenciadores do Vida nos 30.
Para a lógica fria do mercado, essa mudança de temperatura é vista com alguma apreensão. Daniel Aguiar, da Deezer, sintetiza a tese do setor: a nostalgia, como produto, tem um prazo de validade. Ela se alimenta da “sensação de escassez”, daquela urgência de consumir uma experiência que parece “única e que talvez nunca mais se repita”. O primeiro “comeback” concentra uma “demanda reprimida gigantesca”, fazendo as plataformas de streaming explodirem e os ingressos esgotarem. É um fenômeno de pico, explosivo, que cumpre um “sonho realizado” e, depois de esgotada essa fome primeira, a urgência naturalmente diminui, por mais que o interesse de fundo persista.
Contraria essa visão de “desgaste” a percepção de muitos fãs e a própria natureza da memória afetiva. O melhor argumento contrário, aquele que a indústria teima em subestimar, reside na capacidade da nostalgia de se transformar, de evoluir de uma euforia pontual para um “vínculo contínuo, mais estável e menos impulsivo”, como descrevem as administradoras do fã-clube Jonas Brothers Brasil. Para muitos, esse retorno ao passado se torna um “abrigo”, um “lugar seguro” para onde se pode “voltar pra uma fase da vida que parecia mais leve”, segundo o D1sney Terapia. Não é uma commodity com prazo de validade, mas um veio d’água subterrâneo, capaz de alimentar uma conexão duradoura e profundamente pessoal.
É aqui que a ótica do Magistério da Igreja e a clareza de São Tomás de Aquino impõem um juízo: o setor, em sua ânsia por lucros imediatos e explosivos, tende a tratar o “povo” como uma “massa” a ser estimulada pela escassez e pela propaganda, conforme Pio XII já advertia. Ao fazê-lo, desconsidera a riqueza e a complexidade do desejo humano, que anseia por bens permanentes, por conexões verdadeiras e pelo cultivo da memória, não apenas pelo frêmito passageiro da novidade. A veracidade do mercado exige que se reconheça a natureza real dessa demanda: não é apenas o consumo de um evento “único”, mas a busca de um refúgio, uma ponte entre quem se foi e quem se é. A falta de temperança na exploração desse “veio d’água” ameaça esgotar a fonte, ao invés de cultivá-la.
A solução, portanto, não está em desistir da nostalgia, mas em compreendê-la com magnanimidade e em gerir suas manifestações com justiça e honestidade. Pe Lu, da Restart, aponta um caminho: se a banda decide continuar, “teria que fazer um trabalho novo, lançar um disco novo, trabalhar novas músicas. O normal de um artista.” É a reinserção na vida ativa que redefine a relação com a nostalgia, transformando-a de evento raro em base sólida para um engajamento contínuo. Pablo Falcão, produtor do Chá da Alice, visualiza o potencial de transformar a reunião do grupo Rouge em um “grande acontecimento anual”, um espetáculo que “seria esperado, desejado e vivido de forma intensa”. Isso não dilui o valor; ele o enraíza.
A indústria musical, em sua busca por modelos de negócio, precisa discernir entre o fogo de artifício e o calor da lareira. O consumo de uma memória afetiva é um ato que se aproxima mais da piedade e da reverência pelo próprio passado do que da mera transação comercial. A expectativa dos fãs não é um barril sem fundo de euforia, mas um coração que busca abrigo e reencontro. O desafio não é criar artificialmente a escassez, mas honrar a abundância de significado que os artistas e suas obras representam para a vida de milhões.
A verdadeira magia, afinal, não reside na raridade de um evento, mas na capacidade de uma arte de habitar e transformar continuamente a alma.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.