Uma estrada não é apenas uma fita de asfalto que corta a paisagem; é uma artéria vital, um elo de vida que conecta comunidades, escoa produção e permite o acesso à saúde e à educação. Em Mato Grosso, a rodovia MT-170 – um investimento de R$ 675 milhões, sob a responsabilidade do Estado desde 2022 – deveria ser um sinal de progresso, mas converteu-se em palco de uma disputa ruidosa, revelando fissuras não apenas no pavimento, mas na própria fibra da governança pública.
A tensão escalou quando vereadores de seis municípios do Noroeste, representando mais de 150 mil habitantes, buscaram o Tribunal de Contas do Estado para denunciar a má qualidade das obras. A reação do Governo do Estado, embora tardia, veio com a promessa de rescisão de contratos por “erro de execução”. No entanto, o que deveria ser uma ação de retificação, foi ofuscado por um embate político de acusações entre o ex-governador e o senador, onde a verdade dos fatos se dilui na fumaça da retórica eleitoral. A iniciativa de corrigir os “probleminhas” – como foram eufemisticamente chamados – só se manifestou de forma contundente após a pressão popular e institucional, levantando sérias questões sobre a vigilância preventiva da Secretaria de Infraestrutura.
Aqui, o Magistério da Igreja, em sua Doutrina Social, nos convoca à justiça na administração dos bens públicos. Pio XI, em “Quadragesimo Anno”, já salientava a necessidade de uma ordem profissional que salvaguarde o bem comum, garantindo que o trabalho contratado – no caso, a construção de uma rodovia essencial – seja executado com integridade e competência. A justiça não se resume a punir a má conduta post-factum; ela exige um sistema de acompanhamento e fiscalização que assegure a execução correta desde o início. Quando empresas com ligações políticas notórias são contratadas e entregam uma obra deficiente, a sombra do favorecimento e da negligência recai não apenas sobre os empresários, mas sobre a cadeia de comando que licita e fiscaliza.
O que se viu na cena política mato-grossense, contudo, foi um espetáculo de projeção e ataque, onde a “culpa” se tornou uma bola quente a ser arremessada entre esferas de governo. Críticas à gestão federal de ontem, retribuições sobre supostas “mamata das empreiteiras” de outrora, e a minimização dos problemas atuais. Este jogo de cena desrespeita a veracidade, uma virtude cardinal na vida pública. A população, que sofre com o descaso de uma estrada intransitável ou mal feita, precisa de clareza e honestidade, não de evasivas ou da guerra de narrativas. Pio XII, em sua distinção entre “povo e massa”, alertava para o risco de uma sociedade onde a propaganda e a retórica vazia instrumentalizam o cidadão, transformando-o em mero espectador passivo de um circo político.
A rodovia MT-170, com seus trechos esburacados e promessas de refazimento, torna-se um símbolo da distorção de prioridades. O legítimo interesse em inaugurar obras – uma meta elogiável – não pode jamais obscurecer a exigência de sua qualidade e durabilidade. Gastar R$ 675 milhões para, depois, ter que rescindir contratos e recomeçar, é um desperdício flagrante de recursos que impacta diretamente a capacidade do Estado de servir à sua gente. A virtude da laboriosidade não se contenta com o volume de quilômetros pavimentados, mas com a excelência em cada metro, garantindo que o suor do contribuinte não seja em vão.
Neste cenário de ruído e acusações, a demanda por honestidade e responsabilidade se eleva. A ação reativa do governo em iniciar rescisões contratuais é necessária, mas não basta. É preciso que os mecanismos de controle e fiscalização da Sinfra sejam transparentes e efetivos, impedindo que tais falhas voltem a ocorrer. A comunidade política, desde os vereadores locais que se indignam até as mais altas esferas estaduais e federais, tem o dever moral de trabalhar para o bem da coletividade, e não para o mero avanço de agendas eleitorais. Chesterton, com sua perspicácia para os paradoxos modernos, riria da pretensão de se resolver “probleminhas” enquanto se constrói um palanque sobre os escombros da confiança pública.
A estrada, afinal, não é um palco para a vaidade de governantes nem um campo de batalha para egos políticos; é o caminho concreto que a sociedade percorre em direção à prosperidade e à dignidade. E um bom caminho se faz com a retidão dos engenheiros e a probidade dos gestores, não com a lábia dos polemistas.
Fonte original: Diario de Cuiabá
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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