A aparente calmaria que se seguiu ao encontro entre os presidentes Lula e Trump, com declarações de cordialidade e compromissos de cooperação, pode facilmente enganar o observador incauto. É a miragem no deserto que promete água, mas esconde areias movediças. A fase de confrontação direta, com tarifas e sanções, parece ter sido suspensa, mas essa trégua é mais fruto da volatilidade pessoal e das vulnerabilidades domésticas de Trump do que de uma reconfiguração profunda e estável na relação bilateral. Ignorar essa instabilidade inerente é entregar a bússola de nossa soberania à mercê de ventos inconstantes.
A diplomacia baseada em “química pessoal” e na marginalização temporária de “ideólogos” é uma aposta arriscada demais para uma nação. A história recente de Trump com outros líderes mostra que a amizade pode virar inimizade da noite para o dia, basta que os interesses ou as percepções políticas se alterem. Sua imprevisibilidade, acentuada por reveses domésticos como a impopularidade da guerra no Irã e a inflação, torna-o mais radical, não menos. Confiar na fragilidade de um gigante é esquecer que um animal ferido é ainda mais perigoso. O Brasil precisa de um plano para além da próxima declaração amigável, pois a paz duradoura não se constrói sobre humores, mas sobre princípios de justiça.
A assimetria de poder é inegável e persiste sob a superfície do diálogo. A iniciativa para o encontro partiu da Casa Branca, e as prioridades dos EUA, especialmente no acesso a minerais críticos, são ditadas por sua própria estratégia de desrisco em relação a Pequim. Isso posiciona o Brasil não como um parceiro equitativo, mas como um recurso estratégico a ser explorado em uma disputa geopolítica maior. A pressão “muito agressiva” esperada dos EUA para que empresas americanas adquiram minas brasileiras revela uma mentalidade onde a propriedade com função social, um pilar da Doutrina Social da Igreja desde Leão XIII, é subordinada a um imperativo unilateral. A soberania sobre nossos recursos não pode ser negociada como peça de barganha, nem pode o Brasil aceitar passivamente ser um mero apêndice na cadeia de valor de outros.
Mais alarmante é a naturalização da ideia de “intervenção” dos EUA nas eleições brasileiras. Quer seja para “defender instituições” (como no governo Biden) ou para apoiar alinhamentos ideológicos (como no governo Trump), a disposição de Washington em influenciar processos democráticos de outros países é uma afronta à dignidade de qualquer nação. Isso não é um ato de solidariedade entre iguais, mas uma manifestação de uma “estatolatria” de poder que Pio XI tanto criticou. O Brasil deve, com fortaleza e clareza, rejeitar qualquer ingerência em seu processo eleitoral, construindo salvaguardas que assegurem a integridade de sua democracia de forma autônoma.
As ameaças de sanções direcionadas – seja ao sistema Pix, à regulamentação tecnológica, ou à designação de facções criminosas brasileiras como terroristas – são demonstrações claras dessa assimetria. Tais medidas criam “pesadelos de conformidade” para nossas empresas e instabilidade política interna, sem necessariamente combater o mal que se propõem a enfrentar. A diminuição da influência regional do Brasil, vista por Washington como um convite para engajar-se diretamente com outros países sul-americanos, é um sintoma da erosão de nossa própria política externa, que precisa de um alicerce mais firme do que meras percepções de conveniência alheia.
O caminho para o Brasil não é o da acomodação passiva aos humores de um líder estrangeiro, nem o da ilusão de uma paridade que não existe. É preciso ancorar nossa política externa em princípios permanentes, defendendo com firmeza a subsidiariedade que exige respeito à autonomia dos corpos menores, sejam eles nações ou organizações locais. Isso significa atrair investimentos em minerais críticos sob nossas próprias regras, proteger nossa infraestrutura digital e, sobretudo, zelar pela integridade de nossas instituições e processos democráticos sem aceitar tutelas.
A verdadeira vocação do Brasil na arena global é a de uma nação que busca a ordem justa e a paz, não a submissão aos ditames de potências hegemônicas. Que o encontro de cúpula não seja um convite à complacência, mas um alerta para a necessidade de um projeto nacional robusto, capaz de navegar por mares turbulentos com a bússola da reta razão e a âncora de seus próprios valores.
Fonte original: Valor Econômico
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.