Na frenética arena da praça pública digital, onde opiniões trocam socos virtuais e a verdade muitas vezes se arrasta ferida, surge um novo personagem. Não de carne e osso, mas de pixels e algoritmos, uma “Dona Maria” que, com sua indignação fabricada, arrebatou milhões de brasileiros, colocando em xeque não apenas a lisura do próximo pleito, mas a própria sanidade do debate público. Ela é a voz raivosa que ressoa o descontentamento genuíno com os custos de vida, a ineficiência do Estado e a percepção de injustiça no andar da República.
A ascensão de um avatar de IA, criado a baixo custo por um motorista de aplicativo do Rio de Janeiro, não é um mero fenômeno tecnológico; é um sintoma da profunda ferida que lacera o tecido social. “Dona Maria” se tornou um megafone para frustrações legítimas, expressando a dor de quem sente o peso de mil reais por metade de um carrinho de compras. Sua popularidade explosiva demonstra que, sob a superfície digital, palpita uma insatisfação real, que busca eco e representação, muitas vezes não encontrada nos canais tradicionais da política. Isso não pode ser ignorado, pois é um grito, ainda que veiculado por artifício, que se levanta de uma base de padecimentos concretos.
Contudo, o perigo reside não na indignação em si, que pode ser motor de justa mudança, mas na máscara que a inteligência artificial oferece. O criador de “Dona Maria” admitiu ter apagado vídeos com informações incorretas, sem retratação pública. É aí que o campo da liberdade de expressão se distorce em uma veracidade precária. Pio XII, em sua advertência contra a massificação e pela mídia responsável, já apontava para o risco de uma comunicação que, em vez de formar um povo consciente, manipula uma massa amorfa. Quando uma voz sintética, sem rosto e sem o peso da responsabilidade pessoal, pode veicular narrativas inflamadas, ou mesmo inverídicas, e depois desaparecer no éter digital sem rastros, a confiança pública, já tão abalada, desaba de vez.
O Tribunal Superior Eleitoral, ao emitir a resolução 23.755/2026, tenta lançar alguma luz nessa zona cinzenta, exigindo rotulagem para conteúdo de IA e proibindo deepfakes. Há, de fato, uma preocupação legítima de que regulamentações excessivas possam sufocar pequenos criadores e a inovação. A acessibilidade da IA pode democratizar a produção de conteúdo, permitindo que vozes menos poderosas se equiparem às grandes campanhas. Mas a justiça no processo eleitoral não se resume a equiparação de recursos; ela exige um campo de debate fundado na clareza e na verdade. A lei deve mirar não a inovação tecnológica, mas a intenção de enganar, a disseminação deliberada de falsidades e a ocultação da origem da mensagem. Não se trata de calar o pequeno, mas de exigir do pequeno – e do grande – a mesma probidade na comunicação.
O que está em jogo é o próprio discernimento do eleitorado e a integridade da ordem moral pública. O sucesso de “Dona Maria” revela um paradoxo que Chesterton certamente apreciaria: o quão fácil se tornou para uma entidade virtual, sem rosto e sem história, conquistar mais a adesão popular do que muitos líderes políticos de carne e osso. Há uma espécie de loucura lógica em confiar mais na “verdade” dita por um algoritmo raivoso do que na palavra de um concidadão. Isso abre caminho para o “falseamento da vontade do eleitorado”, não por uma manipulação óbvia, mas por uma erosão sutil da distinção entre realidade e artifício. Um povo, capaz de juízo reto, exige transparência e a capacidade de distinguir entre uma pessoa que se revolta e um algoritmo que mimetiza a revolta.
A inteligência artificial não é um demônio a ser exorcizado, mas uma ferramenta poderosa que demanda uma prudência radical em seu uso, especialmente no espaço público. Sua democratização não pode ser a bandeira para o vale-tudo ético. Não se trata de calar a voz do povo ou a justa indignação, mas de garantir que, sob a máscara da tecnologia, não se esconda a mão de quem busca corromper a verdade para manipular a vontade. O futuro da nossa República não reside na eficiência de algoritmos que mimetizam a paixão, mas na inabalável veracidade de um povo que exige e defende a clareza para poder decidir com reta razão. A sociedade que renuncia à verdade, por mais eficiente que seja o seu disfarce digital, entrega-se à sombra de uma falsa liberdade.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.