A infiltração do crime organizado é um veneno lento, que corrói o tecido social não apenas nas esquinas escuras das periferias, mas nos salões onde as decisões são tomadas, e até nos templos da alta finança. Não é uma abstração para artigos acadêmicos, mas a dura realidade que impõe medo nas ruas, violenta famílias e desvia recursos públicos. A ameaça do PCC e do Comando Vermelho é real, profunda e exige uma resposta de Estado, que transcenda a polarização eleitoral e o mero jogo de palavras.
O que se viu com a classificação dessas facções como terroristas pelo governo Trump, estimulada por figuras como Flávio Bolsonaro, é menos um ato de justiça e mais um lance calculado em uma guerra política. A manobra, oportunista em seus múltiplos objetivos — desde desviar o foco de escândalos pessoais até tentar desmoralizar adversários políticos —, busca capitalizar sobre a angústia legítima da população por segurança. Ao promover a ideia de que “Lula defende a soberania do PCC e do CV”, transforma-se um problema complexo de segurança nacional em um panfleto eleitoral, desvirtuando o debate e a capacidade de encontrar soluções eficazes.
Paradoxalmente, essa classificação de terrorismo, conforme alertam vários especialistas, pode mais atrapalhar do que ajudar a ação policial e a cooperação internacional. A urgência da questão da segurança pública, que tem se revelado central em processos eleitorais por toda a América Latina, não pode ser reduzida a uma tática de campanha. O que se espera do Estado e de seus governantes não é a habilidade para encenar um espetáculo, mas a fortaleza inabalável de enfrentar o inimigo com inteligência, recursos e operações contínuas, garantindo a justiça que os cidadãos esperam e merecem.
É inegável que o governo Lula “acordou tardiamente” para a dimensão do problema, priorizando em um primeiro momento mais a legislação que a operação. Contudo, essa constatação não valida a tática da oposição de explorar essa lacuna com rótulos enganosos. A verdadeira solução não reside em importar classificações que desfiguram a natureza do crime organizado – que, em sua essência, busca lucro e poder, não aterrorizar com fins puramente ideológicos. A doutrina social da Igreja, especialmente por Pio XI, adverte contra a “estatolatria”, a ideia de que o Estado é a única ou onipotente solução, e Pio XII distinguia a vida de um “povo” da “massa” manipulável, lembrando-nos que o foco deve ser sempre a dignidade e a segurança do cidadão concreto.
O combate efetivo exige um plano robusto que fortaleça as forças de segurança, as agências de inteligência e o sistema judiciário. Demanda, também, o fortalecimento dos corpos intermediários da sociedade, desde a família até as associações civis, para que não se deixem corromper ou infiltrar. É preciso distinguir entre o inimigo real, o crime organizado que parasita a nação em suas diversas esferas, e o adversário político, com quem se deve manter um debate de ideias, e não uma guerra de slogans vazios. A honestidade intelectual exige reconhecer a gravidade da ameaça e a necessidade de uma ação estatal firme e contínua.
A liberdade ordenada, pilar da vida comum que Leão XIII tanto defendia, não se garante com rótulos importados nem com simplificações eleitorais, mas com a fortaleza de um Estado que serve ao povo e com a justiça inabalável de suas leis e operações, sem jamais se deixar desviar do caminho da verdade.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
Artigos Relacionados
Brasil e Terrorismo: A Cegueira Voluntária com PCC e CV