A política, arte do possível, por vezes confunde-se com a ciência do transplante. Em vez de cultivar raízes no solo nativo, assistimos a um frenesi de movimentação, onde a viabilidade eleitoral se tornou mais determinante que a autenticidade do vínculo com a comunidade. A discussão sobre a necessidade de revisar o domicílio eleitoral, que o Tribunal Superior Eleitoral interpreta com uma latitude que abarca até os laços “afetivos”, é um sintoma desta enfermidade. Nomes como Eduardo Cunha, Carlos Bolsonaro, Marina Silva e Simone Tebet ilustram essa rotação de candidatos que, ao buscar novos campos eleitorais, provocam a ira de lideranças locais e questionam a própria natureza da representação.
É compreensível a preocupação com a erosão da confiança pública quando a mudança de domicílio eleitoral é percebida como mera “engenharia política” — uma manobra burocrática para otimizar votos, em vez de um movimento orgânico de um líder que de fato se enraíza numa nova comunidade. Essa migração estratégica, com a promessa de emendas parlamentares ou a força de um sobrenome famoso, pode desviar a atenção dos problemas reais de uma localidade, concentrando candidaturas em redutos mais férteis e relegando outras regiões ao esquecimento. A veracidade do vínculo do representante com o representado é uma exigência da justiça eleitoral, pois sem ela, a representação se torna uma ficção jurídica, um simulacro de legitimidade.
Contudo, a tentação de enrijecer excessivamente as regras, sob a bandeira da “autenticidade”, também guarda seus perigos. Uma restrição severa pode, paradoxalmente, asfixiar a competição, impedir a renovação dos quadros políticos e solidificar o poder de oligarquias locais. Numa federação vasta como o Brasil, a atuação de um senador ou deputado federal transcende os limites de um único município. Exigir uma residência física estrita para todos os cargos pode ignorar a trajetória e o reconhecimento de líderes que, por sua experiência e capacidade, são chamados a servir em âmbitos mais amplos. A flexibilidade, dentro de limites razoáveis, permite que um político com experiência reconhecida possa buscar um mandato onde sua contribuição seja mais valorizada, sem que isso signifique o abandono da virtude da honestidade em sua representação.
A solução não reside na estatolatria de uma burocracia que tenta definir com lupa o que é um “vínculo autêntico”, gerando mais judicialização e discricionariedade. Tampouco está na completa liberalidade que desvirtua o propósito do domicílio. O princípio da subsidiariedade nos recorda que o local e o próximo devem ser valorizados e protegidos, mas a ordem da cidade e da nação exige também uma articulação que transcenda o estritamente paroquial. A justiça, nesse cenário, clama por um discernimento prudente: regras claras que coíbam o oportunismo flagrante, sem punir a mobilidade legítima de quem busca servir a um bem mais amplo. A inteligência do eleitorado, por sua vez, não deve ser subestimada; ele é capaz de, no devido tempo, discernir entre o líder enraizado e o mero turista eleitoral.
É preciso um esforço cívico e moral para que a busca por mandatos seja guiada pela vocação de serviço, e não pela cartografia eleitoral mais vantajosa. O que está em jogo é a integridade do processo democrático e a dignidade da representação política. Não é uma questão de proibir o movimento, mas de ordenar o propósito. O verdadeiro líder, como bem observava Chesterton, não é aquele que busca o lugar mais fácil para fincar sua bandeira, mas aquele que encontra no solo onde está o potencial para cultivar a vida em comum.
A verdadeira arte de governar não se mede pela agilidade das manobras cartográficas, mas pela solidez dos laços que um homem é capaz de cultivar na alma de um povo. É na lealdade às suas raízes, não na astúcia de seus mapas, que se edifica a cidade duradoura.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.