Quando a bússola cívica parece avariada e os mapas sociais rasgados, é tentador declarar a paisagem política irreconhecível. Marcos Nobre, com a acuidade de seu bisturi analítico, tem dissecado a conjuntura brasileira com um diagnóstico que aponta não para uma mera tempestade, mas para uma alteração tectônica: o fim de velhos arranjos e o surgimento de uma “divisão” que transcende a polarização. Este cenário, onde o escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro parece ser apenas um ruído passageiro para uma base eleitoral impermeável, é sintoma de uma crise de fundo que exige mais do que um ajuste de rota; pede uma reorientação de propósitos e uma renovação de alianças morais.
Nobre descreve a realidade de um Executivo encurralado, com um governo de minoria dependente de uma base “anti-impeachment” e emendas impositivas que reconfiguraram o poder no Congresso. A declaração do “fim do presidencialismo de coalizão” e do “lulismo” como o conhecemos é um reconhecimento da exaustão de um modelo. Contudo, classificar a “divisão” como “campos diferentes, inconciliáveis” e descartar a “terceira via” como uma “ideia fantasiosa” beira um fatalismo analítico que, embora compreensível diante da crueza dos fatos, esvazia a agência moral e política. É legítimo apontar a crescente dificuldade de formar maiorias governistas estáveis e a fragilização do Executivo; é, porém, um atestado de desesperança afirmar a impossibilidade de diálogo. A mera persistência de 24% do eleitorado que busca alternativas aos polos principais não é uma fantasia; é um sinal de que a sede por uma ordem política mais harmônica e justa persiste.
A inteligência católica, ancorada na Doutrina Social da Igreja, recusa o veredicto de que uma comunidade política é intrinsecamente ingovernável ou irremediavelmente dividida. A realeza social de Cristo, proclamada por Pio XI, não é um regime teocrático, mas a lembrança de que a vida pública não pode prescindir de uma ordem moral objetiva, baseada na lei natural, que sirva de alicerce para a convivência. O fim de um arranjo político, como o presidencialismo de coalizão, não significa o fim da política, mas a exigência de que novos organismos vivos da sociedade assumam seu papel. A subsidiariedade, defendida por Pio XI, não é um mero slogan, mas um princípio de ação: quando o centro falha em articular o bem comum, os corpos intermediários – associações profissionais, comunidades locais, a própria família – devem ser fortalecidos e agir, construindo pontes onde o Estado vê muros.
O caso Vorcaro, com sua superficialidade de “timing político bom” para um candidato, revela uma face da crise: a indiferença ou a impotência diante da moralidade pública. A resiliência da base eleitoral, por mais real que seja, não anula a exigência de virtudes cívicas como a honestidade e a responsabilidade, que devem permear a vida pública. A sociedade, para ser verdadeiramente livre e capaz de autogoverno, precisa de mais do que a acomodação de interesses; precisa de uma firmeza de caráter (Fortaleza) para resistir às facilidades do cinismo e de uma visão de futuro (Esperança) que enxergue além do impasse imediato. A ideia de que o Brasil está “sob risco de ruptura o tempo todo” deve ser menos um lamento e mais um chamado à reconstrução.
Não se trata de negar a gravidade da conjuntura, mas de recusar a tentação de declarar o campo de batalha perdido. A Igreja, que testemunhou impérios desabarem e nações se reerguerem, sabe que o espírito humano é capaz de edificação mesmo nas ruínas. A verdadeira tarefa de nosso tempo não é aceitar o diagnóstico de “fim”, mas trabalhar para a superação da “divisão” mediante a reafirmação de uma ordem moral comum, o fortalecimento dos laços comunitários e a reinvenção de formas de cooperação que, embora imperfeitas, sejam movidas pelo desejo de uma ordem mais justa.
O caminho para restaurar a integridade da república não passa por simular uma normalidade que já não existe, mas pela coragem de assumir o custo da reconstrução. É preciso edificar uma paz social não por acomodação, mas pela firme busca da justiça, onde cada cidadão, cada família e cada corpo intermediário assumam sua parte na tarefa de restaurar a casa comum.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.