A palavra pública, sobretudo quando investida de pompa e poder de Estado, tem a força de um pincel que tanto pode pintar um quadro fiel quanto forjar uma paisagem idealizada. É nesse espírito que o artigo do presidente brasileiro em jornal alemão, e sua subsequente missão diplomática, devem ser lidos: como uma projeção de intenções e um convite à cooperação, que se eleva à altura de suas aspirações mais nobres quando ancorada na verdade e na justiça, mas que tropeça quando se aparta da realidade complexa dos interesses e das assimetrias. O multilateralismo, a busca por energias limpas e a redução do desmatamento são, em si, objetivos louváveis e necessários para a vida comum e a paz social. Contudo, a veracidade impõe um exame da substância por trás das celebrações.
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, ensina que a sociedade não é uma massa indistinta, mas um conjunto orgânico de corpos intermediários que precede e sustenta o Estado. Pio XI, em sua `Quadragesimo Anno`, alertava contra a estatolatria, a glorificação do Estado como artífice único de progresso. Quando o Brasil se apresenta como um país de “níveis mais baixos de pobreza, desigualdade e desemprego de sua história”, é fundamental que essa narrativa não encubra as tensões e os custos reais que a busca por “recordes históricos” pode impor aos elos mais frágeis da cadeia social. A substância de um desenvolvimento justo se mede pela prosperidade difusa, pelos salários que garantem a vida familiar digna, e não apenas pelo brilho efêmero de uma bolsa de valores ou pela soma fria de trilhões.
O acordo Mercosul-União Europeia, agora em vias de entrada em vigor, é um exemplo notável dessa ambição. Apresentado como a “maior zona de livre comércio do mundo”, o seu sucesso verdadeiro dependerá não da magnitude numérica dos bens transacionados, mas da equidade com que seus benefícios e encargos serão distribuídos. A justiça exige que se considerem os setores industriais e agrícolas do Brasil, muitas vezes menos competitivos, que podem ser esmagados pela maior abertura de mercado. A premissa de que “ambos os lados se beneficiam de soluções multilaterais” é verdadeira em princípio, mas a prática exige que não se ignore a assimetria de poder e as condições que parceiros mais fortes, como a Alemanha, podem impor. A subsidiariedade, pedra angular da Doutrina Social, lembra que o que pode ser feito pelos corpos menores não deve ser avocado pelos maiores, e que acordos supranacionais devem fortalecer, e não suprimir, as autonomias locais e nacionais.
No campo ambiental, a redução do desmatamento na Amazônia é uma conquista que merece reconhecimento. Todavia, a honestidade intelectual requer que não se generalizem tais avanços como uma “liderança pelo exemplo” que ignora as pressões contínuas sobre outros biomas brasileiros e a sustentabilidade a longo prazo dessas políticas. A expansão dos biocombustíveis, embora represente uma matriz energética mais limpa, não pode ser desassociada das ponderações sobre uso da terra, segurança alimentar e impactos socioambientais em comunidades rurais e tradicionais. A temperança no uso dos recursos e a responsabilidade com o bem-estar futuro são virtudes indispensáveis, que superam o entusiasmo momentâneo pelas soluções tecnológicas.
A asserção de que meros 4% dos gastos militares globais poderiam erradicar a fome no mundo, embora carregada de boa intenção retórica, é a mais aguda das abstrações. Chesterton, com sua sanidade contra a loucura lógica das ideologias, denunciaria tal simplificação como um atalho que ignora a estrutura profunda da miséria, que é menos falta de recurso bruto e mais ausência de ordem justa, de governança reta e de caridade atuante. A reforma de organismos como a ONU e a OMS é uma aspiração de magnanimidade, mas o reconhecimento das resistências e dos interesses consolidados de potências com poder de veto é um ato de humildade e veracidade política, que pauta a ação num terreno de efetividade e não de quimeras.
A retórica do “protagonismo internacional” é sedutora, mas a solidez do papel do Brasil no cenário global não será construída apenas sobre a eloquência de artigos e a pompa de feiras. A paz e a prosperidade, que o presidente Lula defende em seu texto, não podem crescer “de forma coletiva” se não brotarem primeiramente de forma concreta e justa no cotidiano de cada cidadão e em cada comunidade. A substância do verdadeiro progresso reside não na projeção de uma imagem impecável em jornais estrangeiros ou na soma de trilhões, mas na solidez invisível dos alicerces morais de uma nação, onde a verdade, a justiça e a caridade se entrelaçam no cotidiano de cada vida.
Fonte original: Revista Fórum
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.