O palco da política, por sua natureza, exige a presença do ator, a voz que ecoa e o olhar que alcança a plateia. Contudo, testemunhamos a estranha tentativa de orquestrar a próxima eleição a partir dos bastidores de uma prisão domiciliar, onde a luz da ribalta é substituída pela penumbra das restrições judiciais. Jair Bolsonaro, impedido legalmente de qualquer contato político direto e cumprindo pena em casa, ensaia a divulgação de uma lista de candidatos ao Senado, visando, supostamente, pacificar as disputas internas de seu grupo e fortalecer uma bancada parlamentar que lhe seja fiel, com o ambicioso propósito de eleger até 35 senadores aliados. A intenção seria usar esse endosso como bússola para os fiéis, uma forma de externar a “vontade” do ex-presidente por procuração.
Mas a política não é um mero jogo de xadrez em que se movem peças a distância, sem consideração pelo tabuleiro real. A capacidade de influência de um ex-presidente condenado por tentativa de golpe, mesmo sob restrições judiciais rigorosas, no processo eleitoral, levanta sérias questões sobre a integridade e a equidade da disputa democrática. A lista, ainda que elaborada com a “boa intenção” de unificar, corre o risco de tornar-se um fator de aprofundamento de ressentimentos e cisões, em vez de solucioná-los. Afinal, quais seriam os critérios de escolha dos candidatos? Aqueles informados pelos poucos interlocutores com acesso ao ex-presidente, que porventura possuem suas próprias agendas e vieses? A verdade devida à base eleitoral e aos próprios partidos se dissolve na opacidade de decisões tomadas à margem do debate aberto e plural.
Para o Magistério da Igreja, e especialmente na lição de Pio XII, há uma distinção fundamental entre “povo” e “massa”. O povo é um corpo vivo, orgânico, que participa ativamente da vida política, cujas aspirações e escolhas nascem do diálogo e da experiência local. A massa, por outro lado, é um agregado passivo, facilmente manipulável e moldado por influências externas e centralizadas. Uma lista imposta de cima, sem a devida deliberação e o reconhecimento da autonomia das realidades locais, trata os atores políticos e o eleitorado como massa, desconsiderando a riqueza do discernimento próprio e a necessidade de que as decisões brotem das instâncias mais próximas aos problemas e às pessoas. O princípio da subsidiariedade é, aqui, frontalmente desafiado: as decisões que afetam diretamente a vida política local e a constituição dos corpos intermediários – os partidos – deveriam ser tomadas por aqueles que estão mais próximos da realidade, e não por um poder centralizado e fragilizado.
Chesterton, com sua sanidade irônica, certamente veria nesse esforço de comando remoto um dos paradoxos mais curiosos da política moderna. A tentativa de reger o complexo e orgânico corpo político de uma nação a partir de um isolamento forçado é quase um conto de fadas às avessas: o rei nu, ou melhor, o rei ausente, que ainda acredita poder vestir os súditos a seu bel-prazer. A política, para ser virtuosa, exige a presença, o contato com o chão, a capacidade de ouvir e de mediar. A ilusão de que um endosso solitário pode suplantar a negociação, o debate e a liderança ativa é um sintoma de uma pretensão de engenharia social que a humildade política deveria repelir.
As consequências de tal ato são previsíveis e amargas. Candidatos preteridos sentirão a injustiça de serem deslegitimados por uma decisão opaca. O próprio Partido Liberal terá o ingrato papel de gerir as expectativas e a frustração geradas por uma lista que não nasceu de seus próprios quadros, mas de um poder externo e constrangido. A lealdade a uma figura, por mais carismática que seja, não pode suplantar a necessidade de coerência ideológica ou a primazia da verdade nas alianças e nas escolhas. O endosso do líder, em vez de conferir legitimidade inabalável, expõe a fragilidade da autoridade quando esta se desvincula da participação e da deliberação. A busca por cargos e por uma vaga no parlamento não pode se dar à custa dos princípios basilares de uma ordem justa.
O verdadeiro tecido político não se urde por fios invisíveis de uma teia solitária, mas pela trama forte de laços comunitários e pela justiça que brota da livre e responsável participação. O que se desenha não é a força de um comando, mas o vulto de uma figura que, pela sua própria condição, expõe os limites de um poder que se crê absoluto, mesmo quando ausente. A vitalidade de um movimento não se mede pela obediência a uma lista, mas pela capacidade de gerar líderes autênticos, enraizados na realidade.
Fonte original: Notícias ao Minuto Brasil
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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