Quando se observam os alicerces de uma nação, percebe-se que a solidez de sua prosperidade não se mede apenas pela pujança de um setor, mas pela integridade de sua estrutura. A jornada do senador Flávio Bolsonaro pelo Mato Grosso, com sua enfática defesa do agronegócio sob a bandeira de que “o futuro nasce no campo”, acena com a promessa de um caminho mais fácil para a riqueza, mas convoca a um exame mais profundo sobre o custo de tal atalho para o destino comum.
A retórica de “não atrapalhar” o setor produtivo, a proposta de desburocratização ambiental e a ampliação de crédito são, à primeira vista, um bálsamo para quem enfrenta entraves reais. Contudo, a prosperidade genuína e duradoura de um país requer mais do que incentivos pontuais ou a mera remoção de regulamentações. Ela exige uma base inabalável de ordem jurídica, respeito às instituições e uma visão de desenvolvimento que abrace a nação em sua plenitude, e não apenas uma de suas partes. A experiência nos mostra que a atração de investimentos robustos e a construção de um futuro previsível dependem, acima de tudo, da segurança que emana de um Estado de Direito respeitado.
É neste ponto que a proposta de anistia para os condenados pelos atos de 8 de janeiro, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, e as críticas veementes ao Supremo Tribunal Federal, revelam uma fissura preocupante nos alicerces. A justiça, enquanto virtude cardeal e princípio de ordenação da sociedade, não pode ser submetida a conveniências políticas ou à relativização de crimes contra a ordem democrática. Ela exige que a lei seja aplicada com isonomia, que a responsabilidade seja devidamente atribuída e que as decisões judiciais, no seu devido rito, sejam acatadas. Corroer a autoridade de um poder em nome de uma “normalidade” forjada é minar a própria credibilidade do sistema que garante a liberdade ordenada de todos, uma lição tão antiga quanto os ensinamentos de Leão XIII sobre a relação entre a família, o Estado e o respeito às hierarquias naturais e legais.
A “desburocratização” ambiental, quando desacompanhada de um compromisso sério com a proteção dos biomas e dos acordos internacionais, é um risco que a nação não pode se dar ao luxo de correr. Reduzir a complexidade ambiental a um mero “entrave” é ignorar a sanidade que reconhece a interdependência entre a produtividade e a sustentabilidade. Chesterton, em sua sagacidade paradoxal, bem alertaria para a loucura lógica de quem derruba a cerca sem jamais ter perguntado por que ela foi erguida. O custo de um desmatamento irresponsável, de uma exploração sem freios, recai sobre o todo, não apenas sobre os beneficiários imediatos, comprometendo a imagem do Brasil e expondo-o a sanções globais.
Uma genuína magnanimidade política não se contenta em acenar com soluções simplistas ou em polarizar o debate. Ela busca edificar uma visão de futuro que seja abrangente, que considere a justiça social (como defendido por Pio XI) e que não sacrifique o longo prazo em nome de ganhos eleitorais imediatos. A realeza social de Cristo, que inspira a Doutrina Social da Igreja, aponta para um Reino onde a ordem, a verdade e a caridade prevalecem, exigindo dos governantes um discernimento que transcenda o particular e se volte para o bem integral do povo, e não meramente de uma massa instrumentalizada por promessas.
É preciso que a veracidade permeie o discurso público. Um país que aspira a um futuro próspero precisa de líderes que encarem a realidade em sua complexidade, que construam pontes entre setores e que respeitem os pilares da democracia. O atalho de deslegitimar instituições ou anistiar atos que as atacam pode gerar aplausos temporários, mas desestabiliza o chão sobre o qual toda a sociedade se move. A verdadeira força de uma nação não reside em sua capacidade de derrubar, mas em sua sabedoria para edificar sobre fundamentos perenes de justiça.
O futuro, afinal, não se garante apenas no campo, nem se edifica sobre a areia movediça da desordem institucional. Ele exige a construção contínua de um destino comum, onde a lei seja soberana, os poderes se respeitem e o desenvolvimento seja um fruto da ordem justa, não da conveniência de ocasião.
Fonte original: Diario de Cuiabá
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.