Quando a casa da política se ergue sobre alicerces movediços ou quando seus construtores escolhem a demolição simbólica em vez da edificação paciente, as consequências não demoram a se abater sobre os inquilinos. A Bolívia, palco de uma recente e tumultuada eleição presidencial em 2025, oferece um laboratório amargo para quem busca discernir entre o grito de revolta legítimo e a armadilha estratégica que, por vezes, confunde pureza ideológica com eficácia política. A exclusão de Evo Morales da disputa, ato que por si só levanta fundadas preocupações sobre a integridade e imparcialidade das instituições eleitorais, foi o estopim para uma tática radical de voto nulo, cujos desdobramentos atuais clamam por um juízo rigoroso.
É inegável a legitimidade da indignação que brota quando um líder de expressão popular é impedido de concorrer por vias que se afiguram mais políticas do que jurídicas. A perseguição judicial, a instrumentalização de organismos internacionais e o risco de retrocessos sociais sob governos de pautas neoliberais são ansiedades genuínas dos trabalhadores e dos setores populares. Estes temores não podem ser descartados como mera propaganda, pois ecoam a memória de um golpe de Estado em 2019 e a vulnerabilidade constante dos movimentos sociais à repressão estatal. O clamor por uma ordem justa e a defesa da participação plena são direitos inalienáveis da pessoa humana e deveres que a Doutrina Social da Igreja sempre exaltou.
Contudo, mesmo a mais justa das causas pode ser comprometida por uma estratégia imprudente. O apelo ao voto nulo, que mobilizou mais de 1,2 milhão de eleitores e superou 19% dos votos válidos, pode ter sido, paradoxalmente, um tiro no pé político. Ao invés de deslegitimar o processo ou impedir a ascensão de um governo adversário, a tática pode ter simplesmente cedido o campo eleitoral, esvaziando a esfera institucional de qualquer oposição organizada e eficaz. A vitória de Rodrigo Paz, que encerrou quase duas décadas de domínio do MAS, consolidou-se em um vácuo de alternativas que a esquerda, ao recusar o tabuleiro, ajudou a criar.
A ideia de que uma eleição é uma “farsa” por princípio, e que o voto nulo seria a única “verdade”, é uma tentação comum à soberba ideológica. Mas a veracidade exige que se encare a realidade sem filtros. Se 19% dos votos foram nulos, resta uma vasta maioria que optou por outras candidaturas, conferindo, ainda que por contraste, uma legitimidade funcional ao resultado. A distinção tomista entre causa primeira e causa segunda é aqui crucial: a exclusão de Evo pode ser a causa primeira do descontentamento, mas a escolha do voto nulo é uma causa segunda, uma ação humana com consequências previsíveis e imputáveis. Era um ato de denúncia que não se converteu em um ato de contenção, mas de auto-imolação eleitoral.
Os movimentos populares na Bolívia – trabalhadores, camponeses, mineiros, professores – encontram-se agora em uma posição de confronto direto com um governo de direita que detém todo o aparato estatal: militares, polícia, judiciário. Sem uma presença institucional forte que pudesse atuar como anteparo, como plataforma de negociação ou como escudo protetor das conquistas sociais anteriores, a luta se desloca para as ruas, onde a assimetria de poder é brutalmente clara. Pio XI, em sua defesa dos corpos intermediários, jamais defendeu que a vida social se reduzisse a uma polaridade entre o Estado e a massa atomizada. Ao contrário, a vitalidade da sociedade reside nas suas associações vivas e capazes de atuar em todos os planos, inclusive o político-eleitoral.
É nesta hora que a sanidade do real se impõe sobre a loucura lógica das abstrações. G. K. Chesterton, em sua defesa apaixonada do senso comum, alertava para o perigo de quem, em nome de uma pureza teórica inatingível, destrói o que é possível e bom. A estratégia do voto nulo, ao invés de deslegitimar o “regime golpista”, parece ter-lhe dado, inadvertidamente, um campo livre para se instalar e operar, relegando as forças progressistas a um confronto extraconstitucional mais árduo, sem uma plataforma política para negociar ou proteger os avanços sociais e econômicos conquistados anteriormente.
A consequência de uma abdicação do poder institucional, por mais nobre que fosse a intenção, é que agora os movimentos populares bolivianos pagam um custo alto em termos de repressão e perda de influência. A justiça política exige não apenas a pureza das intenções, mas a reta ordenação dos meios aos fins, com um juízo claro sobre as consequências reais. Um projeto de transformação social não pode abrir mão da batalha em todos os fronts, sob pena de ver a vitória moral converter-se em derrota prática. A paz social e a estabilidade de uma nação dependem da capacidade de seus cidadãos de edificar o futuro, mesmo em terrenos imperfeitos, sem confundir o desejo de um mundo ideal com a necessidade de governar o mundo real. A Bolívia, em sua dor, adverte que a ausência não é poder; é vácuo.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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