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Bloqueio a Cuba: Ameaça Militar EUA e o Direito Internacional

O bloqueio e as ameaças militares dos EUA a Cuba são crimes internacionais, diz o presidente cubano. Este artigo examina o peso sobre o povo, o desrespeito ao direito internacional e a soberania da ilha.

🟢 Análise

Um navio, à deriva em águas hostis, tem o direito de hastear sua bandeira sem que cada sopro de vento seja interpretado como uma ameaça de tempestade global. A denúncia do presidente cubano Miguel Díaz-Canel, sobre ameaças de agressão militar dos Estados Unidos, classificadas como “crime internacional”, não é apenas retórica defensiva de um governo sob cerco; é o grito de uma ilha que há décadas sente na carne o peso de um bloqueio naval que já soma meses sem petróleo, e que agora vê sua rede elétrica em “estado crítico” e dezenas de milhares de seus filhos à espera de cirurgias. A insistência de Washington em fabricar premissas para intervenção, como a risível alegação de que Cuba representaria uma “ameaça” por possuir “300 drones”, ecoa a triste história de dossiês fraudulentos que precederam conflitos sangrentos, como a infame mentira sobre as “armas de destruição em massa de Saddam”.

A gravidade do momento impõe a virtude da justiça, tanto nas relações internacionais quanto na apreciação dos fatos. Não há justiça onde a balança do poder é tão assimétrica que uma potência pode se arvorar no direito de sufocar economicamente um povo e, simultaneamente, brandir a espada da guerra com base em acusações implausíveis. A Carta da ONU, invocada por Díaz-Canel, confere a todo Estado o “direito absoluto e legítimo de se defender de uma investida bélica”. Esse princípio fundamental da ordem internacional, todavia, é letra morta quando uma nação mais forte impõe uma “emergência nacional” e um bloqueio de fato que desumaniza uma população inteira, enquanto acena com uma “aquisição amigável” ou a ameaça de “tomar o controle” da ilha.

É verdade, como argumenta o contraditório, que a política externa de Cuba, incluindo seu alinhamento com potências como a Rússia na “configuração de uma nova ordem mundial”, é um fator de tensão para os Estados Unidos. Nenhum país é uma ilha completamente isolada das consequências de suas alianças. Contudo, essa interconexão geopolítica não pode servir de salvo-conduto para uma estatolatria unilateral, onde o império julga e executa, subvertendo o direito internacional e a soberania alheia. É uma manifestação cínica da doutrina Monroe, que não tolera a “dissidência” em todo o hemisfério ocidental, mas que se esquece do princípio da liberdade ordenada, onde a soberania nacional, ainda que com suas escolhas e custos, deve ser respeitada em sua capacidade de determinar seu próprio destino.

A justiça social grita diante do sofrimento imposto. A política de pressão dos EUA não atinge apenas o governo cubano; atinge o povo de Cuba, com apagões e hospitais abarrotados. É uma triste ironia que, enquanto potências como a Rússia enviam petroleiros para atenuar a crise humanitária, o governo americano endureça o cerco, alegando dispor-se ao diálogo. Como disse o chanceler brasileiro, os problemas “não podem ser solucionados através da força e da coerção”. A veracidade exige que se chame as coisas pelos nomes: o que se apresenta como preocupação com a segurança é, muitas vezes, uma política de ingerência que se utiliza de pretextos para justificar uma agenda de dominação. Chesterton, com seu paradoxo mordaz, diria que é a loucura lógica de quem, vendo uma vela tremeluzente no escuro, se convence de que ela é um farol de um exército invasor.

A adesão de Cuba ao BRICS+ e o apoio irrestrito da Rússia e de outras nações servem como um contraponto necessário a essa hegemonia unilateral. Não se trata de endossar ideologias ou regimes, mas de defender o princípio de que o direito internacional deve ser uma baliza para todos, e não um capricho dos mais fortes. A paz social na América Latina, como bem apontou o presidente colombiano Gustavo Petro, depende de que se rejeite o intervencionismo e que se honre a José Martí e as repúblicas livres e soberanas.

O cerco a Cuba, portanto, transcende a disputa política; é um teste à consciência global sobre os limites do poder e a exigência da justiça. A ordem internacional não pode ser edificada sobre a areia movediça da propaganda e da coação. O mundo, que busca uma nova ordem mais plural e equilibrada, tem o dever de exigir que as nações se tratem com o respeito devido à sua soberania e à dignidade de seus povos. Uma agressão militar a Cuba não seria um incidente isolado, mas uma ferida aberta na carne de todo um continente.

A verdadeira força reside na adesão inabalável à justiça, e não na capacidade de impor vontades pela força.

Fonte original: Hora do Povo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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