As ruas de La Paz e El Alto, veias outrora pulsantes da vida boliviana, estão hoje estranguladas. O clamor por melhores salários, estabilização econômica e o fim da privatização ecoa em bloqueios de vias e confrontos, enquanto o governo de Rodrigo Paz responde com a mobilização de 3.500 agentes, prisões e gás lacrimogêneo. Entre acusações de repressão e a legítima demanda por ordem, a Bolívia parece ter esquecido que o bem mais básico de uma sociedade é o tecido da vida comum, que se desfaz sob a pressão de dinamites e o cerco de cidades.
Não há como negar a legitimidade de muitas das reivindicações que inflamam as ruas bolivianas. Trabalhadores, camponeses e mineiros têm um direito intrínseco de manifestar seu descontentamento e buscar justiça em suas condições de vida e trabalho. A promessa de um bônus anual para o magistério e os “vários acordos” (ainda que não detalhados) com os mineiros demonstram que há um fundo real de problemas a serem endereçados. A própria eleição do presidente Paz, marcada pela exclusão de um líder significativo como Evo Morales e um alto percentual de votos nulos, acende um alerta sobre a necessidade de um consenso social mais amplo. Mas a verdade, em sua integridade, nos obriga a perguntar: a que custo?
É aqui que a autoridade legítima do Estado, mesmo sob contestação, encontra seu fundamento inalienável. A função primária de qualquer governo não é apenas negociar, mas, antes de tudo, garantir a ordem pública, a segurança dos cidadãos e o funcionamento dos serviços essenciais. Quando rodovias são bloqueadas por semanas, o abastecimento de alimentos, combustíveis e insumos médicos para milhões de pessoas é interrompido. Quando manifestantes, por mais legítimas que sejam suas causas, usam dinamites contra as forças de segurança, a linha entre o protesto e a violência é perigosamente cruzada. A ação estatal para desobstruir vias e proteger a vida não pode ser sumariamente qualificada de “ditadura”; é, antes, o exercício de uma responsabilidade que não pode ser abdicada sob pena de um colapso social que afeta a todos.
A preocupação do vice-presidente Edmand Lara, ao questionar “a que tem medo, Presidente? Ao seu próprio povo?”, é pertinente. Contudo, é preciso discernir entre o legítimo “povo” — em sua multiplicidade de aspirações e necessidades — e a “massa” mobilizada que, por vezes, assume uma agenda de desestabilização política. O perigo está em reduzir a complexidade de um país a um embate simplificado, onde toda a culpa recai sobre um lado e toda a virtude sobre o outro. É justo buscar aumentos salariais; não é justo impedir que pacientes recebam medicamentos ou que famílias tenham acesso a alimentos. A verdadeira solidariedade não se faz pelo estrangulamento do vizinho, mas pela busca de soluções que elevem a todos.
A questão central, portanto, não é se os bolivianos têm direito de protestar, mas como a justiça pode ser restabelecida sem que a nação se autodestrua no processo. Isso exige veracidade de todas as partes: que o governo exponha com clareza a viabilidade de suas propostas e a real situação econômica do país, evitando a tentação de criminalizar genericamente os protestos. E que os líderes do movimento, por sua vez, reconheçam o impacto de suas táticas na vida de milhões de inocentes, distinguindo a busca por reivindicações justas da manobra política que visa apenas a renúncia de um presidente sem apresentar um caminho claro e constitucional para a transição.
O desafio de governar, como o de protestar, exige responsabilidade. O Estado precisa ouvir, dialogar e, onde há justiça, ceder. Os manifestantes precisam lutar por seus direitos sem violar os direitos alheios e sem precipitar o país em uma espiral de ingovernabilidade. A experiência da Bolívia nos lembra que a paz social não é um dado, mas uma construção diária, edificada sobre o respeito recíproco e a adesão às virtudes que sustentam a vida em comum.
Uma nação não se constrói pela mera força, seja ela estatal ou popular, mas pela reta ordenação das liberdades e dos deveres de todos os seus filhos.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.