A Bolívia está, neste momento, com suas artérias sociais estranguladas. As rodovias, que deveriam ser veias de vida para o transporte de alimentos e remédios, transformaram-se em barricadas de protesto, palco para um drama que sangra entre a urgência da fome e a violência do Estado. Confrontos, detenções e o uso de gás lacrimogêneo pontuam uma operação militar e policial que, segundo o governo, busca estabelecer um “corredor humanitário”, mas que aprofunda a fissura em um tecido social já esgarçado.
Ninguém em sã consciência pode ignorar a crueldade dos bloqueios que impedem o acesso a bens essenciais, nem as mortes lamentáveis que, segundo o governo, daí advieram. O restabelecimento da ordem e a garantia de fluxo de insumos são, sem dúvida, deveres elementares de qualquer autoridade legítima. Mas a mera intervenção da polícia e do exército, com seus 3.500 agentes, mais parece um curativo apressado sobre uma ferida profunda do que uma cura real para a enfermidade do corpo social. O que se vê é a repressão do sintoma, sem a coragem de enfrentar a causa.
A doutrina social da Igreja, ecoando a voz de Pio XI, sempre nos recorda que o Estado tem sua função reguladora, mas jamais deve esmagar ou substituir as iniciativas dos corpos sociais intermediários. Quando trabalhadores, agricultores, professores e indígenas se erguem em uníssono, com reivindicações por salários justos, estabilidade econômica e contra privatizações, há um grito legítimo que precede a barricada. Ignorar essas causas profundas e tratar a crise apenas como uma questão de segurança e ordem pública é uma falha elementar de justiça. A autoridade, para ser legítima, deve servir ao bem comum em sua integralidade, não apenas à sua versão mais superficial e imediata.
A narrativa de uma “crise humanitária” utilizada para justificar a repressão militar precisa ser encarada com a devida humildade intelectual. Quantas mortes são comprovadamente atribuídas aos bloqueios? O governo esgotou todas as vias de diálogo com todos os setores insatisfeitos, ou preferiu uma negociação seletiva que apenas aprofunda a fragmentação e a insatisfação? A suspeita de que a repressão visa deslegitimar os manifestantes, ao invés de buscar soluções, é uma sombra que paira sobre a credibilidade institucional e a própria verdade dos fatos.
Neste ponto, somos tentados a lembrar o paradoxo: a sanidade que parece querer resolver um problema complexo com a única ferramenta que tem à mão — a força — pode, na verdade, estar engendrando uma loucura ainda maior. A insistência na força não é apenas um ato de governo; é um precedente que criminaliza o protesto, radicaliza as posições e transforma a rua em campo de batalha, quando deveria ser espaço de encontro para a deliberação cívica. O que se busca é uma paz forçada, um silêncio que esconde a ira, não uma concórdia edificada sobre o reconhecimento recíproco.
Os clamores de Evo Morales sobre supostas intervenções externas, embora carregados de vieses políticos e carentes de verificação independente, não podem desviar o foco da necessidade urgente de um plano abrangente que enderece as reivindicações estruturais dos mais vulneráveis. A questão não é prender líderes ou abrir à força um corredor; a questão é reconstruir a confiança, dignificar o trabalho e garantir que a economia sirva ao homem, e não o contrário, em um exercício de subsidiariedade e justiça social que a nação boliviana tanto anseia.
A Bolívia não precisa de uma “ponte aérea” que apenas remenda a crise, mas de pontes sólidas de diálogo e reformas que unam o país em torno de uma justiça duradoura. A verdadeira paz floresce não no silêncio imposto pela baioneta, mas na harmonia tecida pelo reconhecimento da dignidade de cada voz e pela busca honesta do bem de todos.
Fonte original: GZH
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.