O construtor que ergue uma casa só para, a cada vento que muda, rearranjar os alicerces, as paredes mestras e até a planta original, não inspira confiança nem garante durabilidade. O espetáculo de uma governança que recua sistematicamente de suas próprias medidas, sob o fragor da pressão externa ou o apito das redes sociais, desenha um cenário de instabilidade que, longe de demonstrar pragmatismo, revela uma fragilidade essencial na arte de governar. Desde o saque-aniversário do FGTS até a controversa “taxa das blusinhas”, passando por reviravoltas no Novo RG, na reoneração da folha e na nota técnica sobre o aborto legal, a série de reversões assinala um problema mais profundo que a mera inépcia pontual.
Essa dança de vai e vem, por vezes, é mascarada sob a insígnia da “flexibilidade democrática” ou da “escuta atenta”. Afinal, não é um sinal de maturidade política adaptar-se e corrigir rotas diante de reações inesperadas? O argumento seduz, mas esconde uma armadilha. Chesterton, com sua sanidade paradoxal, alertaria que o homem verdadeiramente sensato não é aquele que nunca muda de ideia, mas o que sabe por que a muda; não é a mera adaptabilidade que denota sabedoria, mas a fidelidade a princípios que guiam as mudanças. Quando cada nova medida se torna um balão de ensaio prestes a estourar ao primeiro sopro de impopularidade, a flexibilidade transmuta-se em hesitação, e a governança perde sua bússola.
A Doutrina Social da Igreja, ao falar da ordem política, aponta para a necessidade de leis estáveis e justas, que garantam a segurança jurídica e a previsibilidade para o cidadão e para o corpo social. Leão XIII, em Rerum Novarum, já falava de uma liberdade ordenada, onde as ações do Estado deveriam fortalecer a família e as associações livres, sem as sufocar com a constante incerteza. A recorrência dos recuos, nesse sentido, não é um gesto isolado, mas uma falha repetida na laboriosidade e responsabilidade devidas à coisa pública, sugerindo uma deficiência estrutural no planejamento e na articulação prévia das propostas. A comunicação apressada e as retificações subsequentes, como no “Pixgate”, apenas confirmam a falta de uma reflexão robusta antes do anúncio, gerando confusão e desconfiança.
Pio XII distinguiu entre “povo” e “massa”, alertando para o perigo de uma governança pautada pela emotividade e pela inconstância da opinião massificada, em detrimento da razão e do bem duradouro do povo. Quando a voz das redes sociais ou o clamor imediato se tornam o principal balizador das políticas, a autoridade legítima abdica de sua função de discernimento e de sua fortaleza para sustentar o que, por princípio e análise séria, seria o caminho mais justo e necessário. A consequência direta é um enfraquecimento da própria noção de lei e de autoridade, transformando o ato de governar numa corrida por popularidade efêmera. No caso da nota técnica sobre o aborto legal, o recuo quase instantâneo demonstrou uma irresponsabilidade particular em matéria de vida humana, um campo onde a solidez moral não pode ser negociada.
Os recuos frequentes não são apenas episódios isolados; eles desenham um padrão. Tal padrão compromete a justiça – não a mera justiça distributiva, mas a justiça como ordem da vida social, que exige clareza e solidez nas regras do jogo. A incapacidade de sustentar decisões, mesmo aquelas que enfrentam resistência, pode ser interpretada como uma forma sutil de “estatolatria” à inversa: um Estado que, em vez de dominar, é dominado pela pressão incessante, perdendo sua capacidade de guiar e de edificar. Isso enfraquece os corpos intermediários da sociedade e deixa os cidadãos à mercê de um ambiente de incerteza que desestimula o investimento, a inovação e o planejamento de longo prazo.
Em suma, a verdadeira magnanimidade de um governo não reside na agilidade de desfazer o que mal foi anunciado, mas na fortaleza de conceber e executar um projeto coerente, com laboriosidade e responsabilidade, capaz de prever obstáculos e de dialogar com consistência. Os recuos, quando se tornam a regra, não são sinais de um governo flexível, mas de um leme que não para de girar, desorientando a nau da nação.
A verdadeira obra de governo não se mede pela agilidade em desmontar o que mal foi erguido, mas pela solidez dos fundamentos que, uma vez postos com justiça e clareza, perduram contra as intempéries e servem ao destino comum de uma nação.
Fonte original: Poder360
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.