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Eleições 2026: Segurança e o Desafio da Justiça Além da Repressão

A eleição de 2026 prioriza segurança pública, mas o texto alerta: a solução não está apenas na repressão. A criminalidade exige justiça social, subsidiariedade e construção comunitária duradoura.

🟢 Análise

O medo, essa sombra antiga que se esgueira pelos lares e as ruas, tomou o centro do palco eleitoral brasileiro. De repente, a segurança pública, por anos tratada como tema secundário ou bandeira de nicho, tornou-se o testamento principal para quem almeja o poder em 2026. A preocupação da população, expressa em pesquisas e no clamor cotidiano, é legítima: a ordem é um bem primeiro sem o qual a vida em sociedade se esvai. E, diante da complexidade da criminalidade organizada, do tráfico e da sensação de impunidade, a exigência de ação se faz imperiosa.

Em resposta a essa demanda, o tabuleiro político exibe agora um leque de propostas que, em sua maioria, converge para o endurecimento penal e a ampliação do poder de intervenção estatal. O governo federal, com seu programa “Brasil Contra o Crime Organizado” e a busca por maior integração via PEC da Segurança Pública, acena com bilhões em investimento e um papel mais proeminente da União. Em paralelo, pré-candidatos como Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema propõem, com variações, a redução da maioridade penal, restrições a benefícios de condenados, a classificação de facções como terroristas e a expansão do sistema prisional.

Contudo, a crença de que o problema da criminalidade pode ser extirpado unicamente com a mão forte do Estado ou com o afiar da legislação penal é uma ilusão perigosa, que muitas vezes disfarça a falta de um diagnóstico mais profundo e a ausência de uma verdadeira justiça social. É preciso ter a humildade de reconhecer que a ordem não é apenas a ausência de caos, mas o florescimento de uma comunidade que se edifica sobre a verdade da pessoa humana e a retidão de suas instituições. Reduzir a segurança a um mero jogo de repressão é tratar o sintoma sem jamais curar a doença.

A Doutrina Social da Igreja, particularmente pelos ensinamentos de Pio XI, adverte contra a tentação da estatolatria e reafirma o princípio da subsidiariedade. A União tem seu papel no combate ao crime organizado, sim, especialmente no que tange a fronteiras, inteligência e asfixia financeira de redes criminosas transnacionais. No entanto, sua atuação deve ser de apoio e coordenação, não de centralização que esmaga as prerrogativas estaduais e a vitalidade dos corpos intermediários. Fortalecer as polícias e a capacidade investigativa local, como propõe o “Consórcio da Paz” de alguns governadores, é um movimento mais orgânico e fiel a uma ordem federativa do que a criação de ministérios gigantes que podem, por vezes, burocratizar mais do que resolver.

A segurança duradoura exige uma inversão da lógica. Não basta construir mais presídios ou aumentar penas indefinidamente – medidas que, se não acompanhadas de uma política séria de ressocialização e de atenção às causas primeiras da criminalidade, apenas sobrecarregam o sistema e radicalizam indivíduos. O desafio da criminalidade complexa pede um investimento substancial e continuado naquilo que constrói a sociedade de baixo para cima: a família, a escola, o trabalho digno, a cultura. Uma ordem justa se funda em oportunidades equitativas e na promoção de virtudes cívicas e morais, não apenas na punição daqueles que sucumbiram ao vício ou à necessidade.

As promessas de campanha, por mais atraentes que sejam em um cenário de medo, devem ser avaliadas com o crivo da realidade e do bem comum. A classificação de facções como terroristas, por exemplo, embora soe como uma medida drástica e definitiva, impõe desafios jurídicos e diplomáticos complexos, além de poder desvirtuar o foco do combate ao terrorismo em si. A verdadeira resposta não está em soluções mágicas ou rótulos impactantes, mas na laboriosa construção de um tecido social resiliente, onde a autoridade legítima age com firmeza, mas também com discernimento e responsabilidade para além do ciclo eleitoral.

A segurança autêntica é um bem que se enraíza na vida comum e floresce na paz social, não no controle militarizado das periferias nem no esvaziamento das garantias individuais. Ela se edifica sobre a verdade dos homens e das instituições, e não na ilusão de que o mal se desarraiga apenas com leis mais duras, enquanto se ignora o chão fértil onde ele prospera.

Fonte original: InfoMoney

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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