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Netanyahu: Controle de Gaza e a Dissonância da Violência

Netanyahu declara controle de 60% de Gaza, mas a realidade dos confrontos e a escalada de mortes desmentem a narrativa oficial. Acordos de paz paralisados expõem a dissonância entre poder e justiça.

🟢 Análise

A imagem de controle total, meticulosamente desenhada em gabinetes de imprensa, raramente encontra eco fiel no chão de terra batida onde a vida pulsa e a morte insiste. A recente declaração do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de que suas forças controlam 60% da Faixa de Gaza e que “trouxemos para casa todos os nossos reféns”, pretende ser um pronunciamento de vitória e estabilidade. Contudo, essa narrativa oficial, embora revestida de autoridade, se choca violentamente com a realidade concreta que se desdobra em Gaza: a persistência da violência, o número crescente de mortos pós-cessar-fogo e a paralisia do próprio processo de paz que deveria consolidar a ordem.

Há uma profunda dissonância entre a reivindicação de domínio e a incapacidade de cessar o derramamento de sangue. Se, de fato, 60% do território está sob controle, como explicar que, desde o cessar-fogo estabelecido em outubro de 2025 – há meses – soldados israelenses continuam a perecer e mais de 850 palestinos foram mortos em ataques aéreos e confrontos? A notícia de um velório atacado em Jabalia, deixando dois mortos, e crianças feridas em Khan Younis enquanto recolhiam lenha, não são incidentes isolados, mas tragédias que corroem a ideia de uma paz sob controle. A contabilidade da guerra, que já soma quase 73 mil palestinos mortos desde 2023, é um clamor pela verdade que transcende o cálculo percentual de um mapa.

O plano de cessar-fogo, mediado por potências internacionais, estabelecia a retirada das tropas israelenses para além da “Linha Amarela”, que demarca pouco mais de 50% de Gaza. A alegação de que “não cedemos nenhum território” e, mais ainda, que se controla “60%” da Faixa, sugere uma expansão *de facto* do domínio que contraria os termos iniciais acordados e os relatos de uma “Linha Laranja” em formação. Esta flexibilização unilateral dos limites pactuados, enquanto o mundo assiste, atinge a medula da ordem pública e da confiança nos acordos. A `veracidade` da palavra em um tratado é tão vital quanto a `justiça` de suas cláusulas.

A prometida segunda fase do acordo, que envolveria o desarmamento do Hamas e uma retirada gradual do exército israelense, está totalmente paralisada há semanas. A terceira fase, que deveria abordar a reconstrução do território – 90% de Gaza está destruída – e a governança da região, permanece sem previsão. A desolação de famílias deslocadas, a carência de ajuda humanitária e a ausência de um horizonte de paz duradoura para o `povo` de Gaza são sintomas de um fracasso que não pode ser mitigado por declarações de sucesso operacional. Pio XII, ao distinguir `povo` de `massa`, nos lembra que a dignidade da pessoa humana não se dissolve em estatísticas ou territórios controlados, mas reside na sua capacidade de viver em liberdade ordenada e segurança.

É certo que a segurança de Israel é uma preocupação legítima, e a persistência do Hamas em violar o cessar-fogo exige uma resposta. A libertação dos reféns foi um objetivo crucial, e sua conclusão na primeira fase das tréguas é um feito. Contudo, a lógica implacável que justifica a expansão do controle enquanto a violência perdura é o tipo de sanidade que, Chesterton nos alertaria, beira a loucura, pois insiste em uma ordem que só existe no mapa dos estrategistas, não na realidade sangrenta das ruas. Reduzir a crise a um balanço militar, ignorando o impasse político e o sofrimento humanitário, é uma tentativa de moldar a realidade à conveniência retórica.

A declaração de Netanyahu ocorre em um momento de fragilidade política interna, com a dissolução do parlamento e eleições iminentes. Tal conjuntura pode motivar um discurso de campanha focado na reafirmação de força e vitória. No entanto, a verdade dos fatos se impõe. A legitimidade de qualquer autoridade, especialmente em tempos de guerra e paz, não se mede apenas pela capacidade de impor o controle físico, mas pela coragem de confrontar a realidade complexa com `honestidade` e pela determinação de buscar uma `justiça` que beneficie a todos, não apenas aos vitoriosos de ocasião. Leão XIII, em sua sabedoria, nos recordava que a família é anterior ao Estado e que a propriedade tem função social – princípios esmagados sob escombros de uma guerra que se alonga e destrói os corpos sociais mais básicos.

A paz não é a ausência de tiros em um mapa controlado, mas a presença de uma ordem justa no coração da vida cotidiana. É a reconstrução de lares, a garantia de segurança para crianças que buscam lenha, e o respeito aos acordos firmados. Uma vitória que coexiste com a morte e a destruição não é plena; é uma suspensão precária da derrota. Pois a verdadeira vitória, sobre os escombros e o silêncio, não é a ampliação de uma linha em um mapa, mas a restauração da dignidade humana onde a verdade e a justiça podem finalmente edificar a paz.

Fonte original: Diario de Pernambuco

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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