A linha amarela que demarca o controle territorial em Gaza, hoje anunciada como conquista, é menos uma fronteira de segurança e mais a cicatriz viva de uma contradição moral. Quando o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu declara que Israel “controla 60% da Faixa de Gaza”, após dois anos de uma operação militar devastadora e com um cessar-fogo frágil e paralisado, a palavra “controle” adquire um peso trágico e paradoxal. É uma declaração de força que se ergue sobre pilhas de escombros e uma contagem assombrosa de vidas perdidas, mais de 73 mil palestinos desde o início da guerra, e mais de 850 desde o próprio cessar-fogo de outubro de 2025.
Esta autoafirmação, apresentada como prova de resiliência e sucesso, não reflete a realidade de uma paz que se desintegra. A primeira fase do cessar-fogo, mediada por potências globais, previa libertação de reféns, troca de prisioneiros e, crucialmente, a entrada massiva de ajuda humanitária. Enquanto reféns foram libertados, a ajuda segue bloqueada e a transição para a segunda fase está há semanas em completo descumprimento. A destruição de quase 90% do território de Gaza, combinada com a paralisação da ajuda, transforma o controle territorial em domínio sobre uma vasta sepultura a céu aberto, onde a subsistência humana se torna um luxo inatingível.
Aqui, a voz da Doutrina Social da Igreja se faz urgente. O que é proclamado como “controle” por um Estado é, para o povo de Gaza, a negação de sua dignidade mais fundamental. São Tomás de Aquino nos ensina que a paz não é a mera ausência de guerra, mas a tranquilidade da ordem, fruto da justiça. E onde está a justiça quando acordos de cessar-fogo são violados impunemente, quando o sofrimento de inocentes se prolonga indefinidamente, e quando a vida se resume a fugir de um bombardeio para outro? A reivindicação de domínio sobre um território tão devastado, com seu povo reduzido à condição de massa despossada e vulnerável, confronta diretamente o ensinamento de Pio XII sobre a distinção entre povo e massa, e a necessidade de uma ordem moral pública que respeite o direito das nações e a dignidade de cada pessoa.
A verdadeira questão não é o percentual do território sob domínio militar, mas o preço humano e moral dessa conquista. A declaração de Netanyahu, proferida em meio a uma convulsão política interna em Israel, com um parlamento prestes a ser dissolvido e eleições à vista, parece mais uma manobra tática de pré-campanha do que um pilar para uma paz duradoura. A instrumentalização de um conflito sangrento para ganhos eleitorais é uma trágica falha de magnanimidade, de uma visão maior que transcende o cálculo político de curto prazo. A justiça exige não apenas o cumprimento dos acordos, mas também a proteção dos civis e a garantia das condições mínimas para a vida e a reconstrução. Um controle que não traz segurança duradoura nem dignidade para os controlados é, em essência, uma ilusão perigosa.
A insistência em manter o que se alega controlar, sem um plano claro para a reconstrução, para a gestão da população civil ou para a reintegração da vida digna, é um atestado de miopia política. O princípio de subsidiariedade, tão caro à Doutrina Social da Igreja, nos lembra que as comunidades menores e os indivíduos devem ser fortalecidos em sua autonomia, não esmagados por uma autoridade centralizada que ignora seus direitos e necessidades básicas. O que se impõe militarmente hoje, a um custo humano incalculável, semeia apenas mais ressentimento e violência para o futuro.
A verdadeira segurança para Israel, e para todos os povos da região, jamais virá da ocupação de escombros, mas da edificação de pontes de confiança e de uma paz fundamentada na justiça. O controle de um território ensanguentado, sem um horizonte de dignidade para os que ali residem, é a mais amarga das vitórias, uma que condena a todos à perpetuação de um ciclo de sofrimento.
Fonte original: Diario de Pernambuco
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.