A declaração de que se controla 60% da Faixa de Gaza, proclamada como vitória em meio a ruínas e mortes, ecoa como um mapa traçado sobre um campo minado. Um cartógrafo, talvez em algum gabinete distante, risca linhas e demarcações, mas sob o traço da caneta arde um território onde 90% das edificações jazem destruídas e a violência, longe de cessar, cobra mais de oitocentas vidas palestinas e ceifa soldados israelenses mesmo após um “acordo” de trégua. A imagem de controle, nesse cenário, é menos uma verdade no terreno e mais uma manobra sobre o tabuleiro político, pavimentando um caminho para futuras eleições em solo instável.
Esta asserção de domínio, feita por Benjamin Netanyahu no exato momento em que seu governo se desfaz internamente pela disputa sobre o serviço militar, expõe uma grave tensão entre a retórica política e a realidade moral. De que tipo de “controle” falamos quando a ordem civil está desfeita, a infraestrutura aniquilada e a segurança é uma miragem que não alcança nem civis, nem soldados? Onde há verdade na proclamação de sucesso se a devastação é a paisagem dominante? A `veracidade` é a primeira virtude a ser cobrada da autoridade legítima; sem ela, qualquer pretensão de governança se torna propaganda vazia.
São Tomás de Aquino nos ensina que o bem comum é a ordem dos bens que permite a todos prosperar. Mas não pode haver bem comum sob a fúria da destruição contínua. Pio XII, em seus alertas contra a massificação, já nos lembrava dos perigos de uma comunicação que trata o povo como massa a ser manipulada por narrativas convenientes, em vez de tratá-lo como um conjunto de pessoas dotadas de dignidade, que exigem a verdade e a busca de uma paz justa. A fala sobre controle, quando o caos é o mestre, é uma distorção perigosa da realidade, um convite à descrença.
A `justiça` é um pilar da paz duradoura. E a justiça clama pela observância dos acordos. O cessar-fogo mediado por potências internacionais, que previa a retirada das tropas israelenses para a “Linha Amarela” – pouco mais de 50% de Gaza – é agora confrontado por uma reivindicação de controle de 60% do território e rumores de uma expansão para uma “Linha Laranja”. Tal discrepância não é um detalhe burocrático; é uma fissura profunda na confiança, um desrespeito à palavra empenhada. Como edificar qualquer futuro de cooperação ou de coexistência quando os termos de um pacto vital são unilateralmente redefinidos antes mesmo de serem plenamente cumpridos?
Chesterton, com sua sanidade peculiar, nos lembraria do paradoxo: o homem que queima sua própria casa para se livrar das baratas não pode depois proclamar que “controla” a ruína. É a loucura de uma lógica que se recusa a ver o custo humano e material de sua própria ação. Uma “vitória” obtida sobre um deserto de destroços, onde vidas se extinguem e a esperança de reconstrução é adiada indefinidamente, é uma vitória de Pirro.
A verdadeira `magnanimidade` da liderança não reside em declarações de controle sobre territórios desolados, mas na capacidade de restaurar a vida, a infraestrutura e a dignidade humana. A responsabilidade por um território “controlado” em tal estado de calamidade impõe a obrigação de agir com urgência para a reconstrução e a proteção dos civis. Sem um plano claro e concreto para a restauração da ordem, para a entrada irrestrita de ajuda humanitária e para a reconstrução das comunidades, a palavra “controle” ressoa como uma ironia cruel.
Não se constrói a paz na areia movediça da retórica política. A estabilidade duradoura, aquela que se busca em qualquer ordem justa, exige a rocha firme da verdade, a fibra irredutível da justiça e a coragem de assumir a responsabilidade pela devastação. Só assim o chão de Gaza poderá, um dia, sustentar não apenas bandeiras, mas a vida de um povo.
Fonte original: Diario de Pernambuco
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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