O palco da diplomacia, adornado com gestos de união e promessas de cooperação, pode por vezes assemelhar-se mais a um espetáculo bem coreografado do que a um encontro sério de vontades em busca da ordem justa. Foi o que se viu na recente visita de Donald Trump à China, onde a pompa e a retórica de “nova era” soaram como um concerto desafinado diante da ausência de acordos substanciais. Em Zhongnanhai, o presidente Xi Jinping apontou para ciprestes entrelaçados, símbolos de união indissolúvel, enquanto se falava em “muitos entendimentos”. Mas, ao fim, o que restou foram apenas galhos secos de promessas não cumpridas, deixando intactos os impasses mais urgentes que afligem a paz mundial e a prosperidade dos povos.
A preocupação legítima que emerge desse cenário não é menor: a falta de progresso em questões críticas como o comércio, o status de Taiwan ou a disputa por tecnologias de ponta não é um mero detalhe burocrático, mas uma falha na construção da estabilidade global. A incerteza que paira sobre as cadeias de suprimentos e os mercados, a iminência de uma escalada de conflitos regionais e a estagnação da crise no Oriente Médio não são abstrações políticas; são realidades que afetam a vida concreta de milhões de pessoas, desde investidores a cidadãos comuns. Quando a diplomacia de cúpula se esvazia de resultados tangíveis, a confiança nos mecanismos internacionais se esvai, e a perigosa “armadilha de Tucídides”, que evoca o risco de conflito inevitável entre potências em ascensão e estabelecidas, parece mais um destino do que uma mera advertência histórica.
Neste contexto, a Igreja, através do Magistério e da sabedoria tomista, sempre sublinhou a necessidade imperativa de uma comunicação responsável e de uma ordem moral pública que transcenda o mero cálculo de poder. Pio XII, por exemplo, advertiu contra a massificação das relações, onde o povo pode ser reduzido a uma audiência a ser impressionada por discursos e imagens, em detrimento do bem real. A virtude da veracidade exige que as palavras e os símbolos da diplomacia correspondam à realidade dos fatos e das intenções. Falar em “união indissolúvel” e “muitos entendimentos” enquanto se evitam discussões sobre soberanias em risco ou sobre o acesso a tecnologias cruciais é uma dissimulação que corrói os fundamentos da justiça nas relações internacionais. A verdade não é um adorno retórico; é o alicerce sobre o qual se constrói qualquer paz duradoura.
A isso se soma a virtude da laboriosidade. A diplomacia, em seu sentido mais elevado, não é apenas um teatro de gestos, mas um trabalho árduo de negociação, de busca de compromissos concretos e de construção de instituições que sirvam ao bem comum. A ausência de acordos substanciais sobre aviação, sobre taxações, sobre o destino de Taiwan ou sobre o Irã demonstra uma carência de laboriosidade em traduzir a boa vontade – ou sua mera aparência – em ações efetivas. A “nova relação” anunciada por Xi Jinping soa, em tal contexto, mais como uma aceitação do status quo de competição estratégica sob um verniz de cordialidade do que um esforço genuíno para superar as causas profundas dos conflitos.
O paradoxo contemporâneo, como bem observaria Chesterton, reside na loucura de buscar a paz armando o palco para a guerra. Os líderes, ao se esquivarem da dureza da mesa de negociações para a leveza dos jardins presidenciais, parecem mais preocupados em consolidar suas narrativas internas de poder do que em resolver os problemas complexos que afetam o mundo. A proposta de “conselhos de comércio e investimento” é um pálido consolo quando os desafios exigem decisões ousadas e sacrifícios mútuos. Não se pode pedir ao povo, seja ele americano, chinês ou taiwanês, que acredite em uma união que seus líderes se recusam a construir com a solidez da verdade e o suor do trabalho.
A dignidade da ordem internacional não se sustenta em encenações polidas, mas na firme busca da verdade e na laboriosidade incessante pela justiça real entre os povos.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.