A política, em sua essência mais nobre, exige não apenas a capacidade de gerir o Estado, mas a coragem de julgar e de ser julgado. Contudo, essa régua moral, indispensável para a confiança pública, por vezes se dobra e se desdobra conforme a conveniência do palanque. É o que se observou na recente agenda de Ronaldo Caiado em Campo Grande, onde o pré-candidato à Presidência desferiu golpes precisos contra o governo federal, mas adotou uma reticência notável ao abordar controvérsias dentro de seu próprio campo político.
O ex-governador de Goiás, em sua investida rumo à Presidência, não economizou na artilharia contra a administração de Luiz Inácio Lula da Silva. Classificou-a de ‘populista’ e ‘irresponsável’, apontou para o cenário de endividamento público e para as ‘medidas improvisadas’. No campo da segurança, associou o avanço de facções criminosas a ‘gestões do PT’, advogando por mais poderes para os estados e um combate reforçado ao tráfico. São, em si, temas de inegável urgência e relevância, que ressoam na legítima preocupação dos cidadãos com a estabilidade econômica e a segurança pública.
Todavia, a mesma inflexibilidade de juízo que Caiado aplicou ao criticar o governo Lula pareceu evaporar-se quando o tema recaiu sobre denúncias envolvendo figuras de seu próprio espectro político, como Flávio Bolsonaro. Questionado sobre o pedido de dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o ex-presidente, Caiado optou por um prudente ‘não cabe ao candidato Ronaldo Caiado ficar fazendo juízo de valor sobre o comportamento de cada uma das pessoas’, arrematando com a máxima de que ‘cada um responde pelos seus atos’. A máxima é justa em si, um pilar da responsabilidade individual, mas seu uso seletivo, quase uma moeda de duas faces, revela uma fragilidade na coerência moral que se exige de um líder.
A Doutrina Social da Igreja, ao debruçar-se sobre a vida pública e a autoridade legítima, não se cansa de recordar que a comunicação dos governantes, ou de quem a eles aspira, deve se pautar pela veracidade e pela integridade. A ordem moral pública, como ensinava Pio XII, não se constrói sobre as fundações movediças do pragmatismo político, onde os princípios éticos são elásticos o suficiente para se adaptarem às alianças do momento. É imperativo que a palavra do homem público reflita uma unidade de critérios, uma constância no que se condena e no que se defende. Não se trata de uma exigência de perfeição santoral, mas de uma honestidade mínima que garanta a credibilidade da mensagem e a confiança do povo.
Nesse cenário, a reticência em julgar o próprio campo, ao mesmo tempo em que se fulmina o adversário com acusações de “complacência com o crime”, soa como um eco da loucura lógica que Chesterton, com sua perspicácia peculiar, tantas vezes desmascarou. É o paradoxo do homem que condena o desvio alheio sem um espelho, ou que usa um espelho que distorce a imagem de seus aliados. A sanidade cívica, no entanto, pede uma medida unívoca, uma balança que não pese os fatos de modo diferente a depender da bandeira partidária. A complexidade do crime organizado, por exemplo, não se esgota na simplificação de “gestões do PT”; ela exige uma abordagem que a justiça e a veracidade demandam, sem reducionismos.
A busca pela Presidência da República não é um mero embate de narrativas, mas um convite à liderança que encarne a ordem. O verdadeiro estadista, aquele que almeja governar um povo e não apenas manobrar uma massa, sabe que a autoridade moral precede a autoridade formal. E essa autoridade só se constrói na integridade inegociável, na coragem de aplicar os mesmos princípios a todos, sem desconto nem acréscimo de facção. Pois a verdade, mesmo quando incômoda, é o alicerce sobre o qual se ergue uma nação digna de seu destino.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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