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PL em Minas Gerais: A Incoerência de Apoiar Cleitinho Azevedo

O PL em Minas Gerais apoia Cleitinho Azevedo para o governo, apesar de seu histórico pró-PT. Analisamos a incoerência partidária e o oportunismo eleitoral que diluem a identidade da sigla.

🟢 Análise

A gramática de um partido político, assim como a de um idioma, deve exibir coerência para manter sua inteligibilidade e, consequentemente, sua autoridade. Quando as regras são alteradas ao sabor da conveniência eleitoral, o discurso se torna gagueira e a identidade, uma máscara que não engana a ninguém por muito tempo. É o que se observa na recente guinada do Partido Liberal em Minas Gerais, ao apostar no senador Cleitinho Azevedo como seu principal pré-candidato ao governo, abandonando as articulações com Mateus Simões. A decisão, embora apresentada como um movimento de pragmatismo eleitoral, expõe uma grave tensão entre a veracidade dos princípios e a plasticidade das alianças.

O PL se consolidou como a principal vitrine do antipetismo e do bolsonarismo. No entanto, o senador Cleitinho Azevedo, a nova aposta da cúpula do partido, ostenta um histórico de votações favoráveis a pautas do governo petista, como o programa Gás do Povo, e defende abertamente a anistia para os condenados pelos atos de 8 de janeiro. A pergunta se impõe: como pode uma legenda que se erige sobre a base do “anti-PT” abraçar um candidato cujas posições, em pontos cruciais, ecoam o governo adversário? A resposta da direção estadual, de que “não vamos pôr freio em ninguém” e que Cleitinho “não está totalmente desalinhado”, é menos um esclarecimento e mais uma tentativa de malabarismo retórico que estilhaça a coerência ideológica.

A incoerência se agrava quando contrastamos o tratamento dispensado a Cleitinho com a rigidez aplicada a Inácio Franco, prefeito de Pará de Minas. Franco enfrenta um pedido de expulsão do PL por apoiar a pré-candidatura ao Senado de Marília Campos, do PT. A justificativa da direção é clara: tal apoio é “incompatível com as diretrizes partidárias” e um “descumprimento inequívoco” das orientações nacionais. Ora, se o apoio a um projeto do PT é motivo para expulsão de um prefeito, por que as pautas pró-Lula do pré-candidato ao governo são convenientemente ignoradas ou minimizadas? Esta assimetria de poder e a aplicação seletiva da disciplina partidária revelam uma falha na justiça interna do partido, subvertendo a própria noção de uma associação livre ordenada por princípios comuns, tal como advogava Leão XIII.

A história do próprio PL é um testemunho dessa dança oportunista. Integrante da coalizão que elegeu Lula em 2002, atingido pelo escândalo do mensalão, rebatizado como PR e depois retomando o nome original, para só então abraçar Jair Bolsonaro em 2021 e se reinventar como baluarte conservador. Tais reviravoltas não são sinais de flexibilidade saudável, mas de uma busca incessante por conveniência eleitoral, onde a identidade doutrinária é um ornamento mutável. O partido parece operar sob a lógica de que o sucesso nas urnas justifica qualquer contorção ideológica, o que vai de encontro à ordem moral pública que Pio XII defendia, onde o “povo” não é uma “massa” a ser manipulada por estratégias de marketing, mas cidadãos a serem conduzidos pela verdade.

Aqui, a virtude da veracidade torna-se o termômetro da saúde política. Um partido que promete um caminho e, por conveniência, pisa em encruzilhadas opostas, perde não apenas a confiança de sua base mais purista, mas a credibilidade junto a todo o eleitorado. A aposta de que o carisma de um “puxador de votos” ou a intenção de voto apurada em pesquisas (que, sem detalhamento, carecem de robustez) podem compensar a esquizofrenia ideológica é um cálculo arriscado. Ele ignora que, a longo prazo, a erosão da confiança causada pela incoerência doutrinária é um preço alto demais, pago com a moeda da seriedade política.

A verdadeira força de um partido não reside na sua capacidade de trocar de pele conforme o vento eleitoral, mas na solidez de seus princípios e na integridade de sua ação. Ao diluir suas próprias diretrizes para abraçar um candidato de apelo popular, o PL não demonstra pragmatismo, mas uma fragilidade fundamental em sua identidade e propósito. A sociedade não busca um espelho de suas contradições, mas um farol que aponte para um horizonte de clareza e verdade. A realeza social de Cristo, lembrada por Pio XI, exige que mesmo a ação política se submeta à Lei Divina e à reta razão, e não à mera estatolatria ou, como neste caso, à “eleitoral-latria”. A conquista do poder é vã se não for para servi-lo com integridade.

A política, em sua essência, exige a coragem de ser quem se diz ser. Um partido que se define como “antipetista” não pode, sem cair em contradição moral grave, abrigar e promover quem defende as pautas do adversário, salvo se for para redefinir abertamente sua própria identidade. A persistência nessa tensão não é sinal de inteligência estratégica, mas de uma fissura que, mais cedo ou mais tarde, comprometerá a integridade de todo o edifício. O eleitorado, ao final, merece a honestidade de um programa e de uma direção que não se dobrem à cada brisa de popularidade.

Fonte original: Jornal Estado de Minas | Not�cias Online

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