Há momentos em que a política, em sua ânsia por vitória, revela uma estranha capacidade de abraçar o que antes repudiava, transformando princípios em meros andaimes descartáveis. O Partido Liberal (PL), que se redefiniu com ares de bastião da direita e do bolsonarismo, agora aposta suas fichas no senador Cleitinho Azevedo para o governo de Minas Gerais em 2026. A jogada, decidida após o abandono das articulações com Mateus Simões (PSD), é um lance pragmático, mas que levanta sérias questões sobre a veracidade de sua identidade e a justiça de seus próprios critérios.
Cleitinho, embora alinhado ao bolsonarismo em pautas como a anistia aos condenados de 8 de janeiro, carrega consigo o rótulo de “esquerdista” por ter endossado propostas do governo Lula, como o “Gás do Povo”, em claro contraste com a oposição ferrenha de seus novos correligionários. É um candidato de fôlego eleitoral, sim, com pesquisas informais apontando-o com alta intenção de voto. Mas a conveniência de um nome forte nas urnas pode ser um vento tão impetuoso que arrasta a nau partidária para longe de suas âncoras doutrinárias.
A fragilidade da coerência interna do PL torna-se ainda mais evidente quando se contrasta o abraço a Cleitinho com o tratamento dado a Inácio Franco, prefeito de Pará de Minas. Franco foi alvo de pedido de expulsão do partido simplesmente por declarar apoio à pré-candidatura de Marília Campos (PT) ao Senado. A direção estadual do PL foi enfática: a conduta do prefeito é “incompatível” com as diretrizes partidárias. A distinção entre o “problema” de Franco e a “solução” Cleitinho, em que um é banido por um apoio local ao PT, enquanto o outro é alçado à cabeça de chapa com um histórico de apoio direto a pautas do governo federal do PT, beira o escárnio e representa uma assimetria de justiça gritante.
Um partido político, na Doutrina Social da Igreja, é uma associação livre que deve servir ao povo, e não à massa informe a ser manipulada (Pio XII). Sua liberdade é ordenada e exige transparência e verdade. Quando um partido prega uma doutrina e pratica outra, ele não apenas engana seu eleitorado, mas se desfigura. A “coerência estética” de uma agremiação, seu perfil moral e intelectual no espaço público, não pode ser submetida a um cálculo puramente eleitoral sem que haja um custo espiritual e cívico. Há uma loucura peculiar em buscar a força na própria contradição, como quem tenta solidificar uma parede construindo-a com pedras que se repelem, uma anomalia que Chesterton não hesitaria em expor como a inversão da sanidade.
A liderança do PL tenta minimizar as tensões, afirmando que Cleitinho “não defende pautas que são características ideológicas do governo” e que a convivência “vai trazer mais esclarecimento”. Contudo, as divergências já são públicas e notórias, até mesmo entre figuras proeminentes como Nikolas Ferreira e o próprio senador sobre a escala 6×1. Esse malabarismo retórico, que tenta obscurecer as diferenças em vez de enfrentá-las com veracidade, enfraquece a credibilidade do partido e a confiança de seus quadros e eleitores. O que está em jogo não é apenas uma cadeira de governo, mas a integridade de uma proposta política que se diz fundada em princípios inegociáveis.
O PL, ao trocar a articulação de um de seus principais expoentes por um caminho mais “viável” nas pesquisas, mostra que a bússola ideológica cedeu ao apelo dos ventos conjunturais. A busca desenfreada pelo poder, sem as âncoras da honestidade intelectual e da justiça na aplicação de suas próprias regras, pode levar a um sucesso pírrico. Pois o que é uma vitória eleitoral se ela se ergue sobre os escombros da própria identidade e da confiança que se deve ao `povo`?
A verdadeira força de uma associação política não reside na habilidade de camuflar suas contradições, mas na coragem de sustentar seus princípios, ainda que isso signifique enfrentar ventos contrários.
Fonte original: Jornal Estado de Minas | Not�cias Online
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.