A política, em seu ideal mais elevado, é a arte de traduzir princípios em ação, de forjar uma comunidade a partir de uma visão compartilhada do bem comum. Mas o que fazer quando a bússola ideológica de um partido aponta para todas as direções ao mesmo tempo, em nome da vitória eleitoral? Em Minas Gerais, o Partido Liberal (PL), que se consolidou sob a bandeira de um bolsonarismo de contornos ideológicos rígidos, encontra-se diante de um paradoxo que revela mais sobre a fragilidade da identidade partidária na política brasileira do que sobre qualquer “nova estratégia” vitoriosa. A aposta no senador Cleitinho Azevedo para a disputa do governo, um nome popular, mas frequentemente rotulado como “esquerdista” por sua adesão a pautas do governo Lula, como o “Gás do Povo”, levanta a cortina sobre uma encenação que desafia a honestidade intelectual de seus próprios apoiadores.
O dilema é explícito. Cleitinho Azevedo, por um lado, defende a anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro e se posiciona em pautas que ressoam com a base conservadora. Por outro, sua disposição em apoiar programas sociais do governo federal, “independentemente da origem partidária”, coloca em xeque a narrativa anti-petista que é o motor vital do PL pós-2021. Como pode uma agremiação que se define pela oposição intransigente ao lulismo, e que condena com veemência seus programas, abrigar e promover quem os abraça? Essa dissonância não é um detalhe retórico; ela é uma rachadura na veracidade do propósito partidário, comprometendo a fortaleza moral que deveria sustentar qualquer projeto político coerente.
A inconsistência se agrava quando se observa a seletividade na aplicação das regras internas. Enquanto Inácio Franco, prefeito de Pará de Minas, enfrenta um pedido de expulsão por ter declarado apoio a Marília Campos, pré-candidata petista ao Senado, as posições de Cleitinho Azevedo, que manifesta apoio a pautas do mesmo governo federal petista, são convenientemente reinterpretadas como “alinhadas ideologicamente”. O presidente estadual do PL, Zé Vitor, tenta costurar a narrativa de que Cleitinho “não defende pautas que são características ideológicas do governo” e que “ideologicamente, ele caminha com a gente”. Essa ginástica argumentativa é um atestado de que a justiça e a disciplina interna são maleáveis demais diante da conveniência eleitoral, transformando o ideário partidário em mera argila moldável pelo vento das pesquisas de intenção de voto.
Evidentemente, o argumento pragmático não tarda a surgir: Cleitinho Azevedo, com 40% de intenção de votos, é o candidato mais competitivo. Abrir mão de uma vitória em nome de uma pureza doutrinária intransigente seria um erro estratégico que condenaria o partido à irrelevância em um estado-chave. Mas a política, para além do cálculo imediato, também é a edificação de uma cultura, de uma confiança pública que se sustenta na previsibilidade e na coerência. Um partido que transige com seus próprios princípios para se ajustar a uma popularidade fugaz, corre o risco de se esvaziar de sentido, de se tornar uma casca sem alma, útil apenas para acomodar ambições pessoais. Como notaria Chesterton, há uma espécie de loucura lógica no homem moderno que, para salvar um pedaço, é capaz de destruir o todo. Aqui, para salvar uma eleição, a identidade do partido é posta em xeque, diluindo aquilo que o tornava minimamente distinguível.
A Doutrina Social da Igreja, ao falar da liberdade ordenada e da necessidade de corpos intermediários com identidade e propósito claros, sublinha que uma sociedade saudável depende de instituições que sejam honestas em sua atuação e que possuam uma substância para além do mero desejo de poder. O PL, outrora, já integrou a coalizão de Lula em 2002. Retomou seu nome, abraçou uma nova identidade e, agora, flexibiliza-a novamente. Este não é um sinal de maturidade política, mas de uma busca incessante por votos que subordina a formação e o caráter do próprio povo à conveniência do dia. Ao enfraquecer seus próprios laços ideológicos, o PL não se torna mais inclusivo, mas mais indistinto, contribuindo para a dissolução da vida comum em um emaranhado de interesses sem bússola.
A eleição é um meio, não o fim. E quando o meio corrompe o fim, a vitória aparente apenas esconde uma derrota mais profunda para a integridade da vida pública.
Fonte original: Jornal Estado de Minas | Not�cias Online
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.