A retidão de uma rota política, como a de um navio em mar aberto, mede-se não apenas pela sua velocidade, mas pela constância de sua bússola. Quando os pontos cardeais parecem mover-se ao sabor das correntes eleitorais, a navegação perde seu norte e a confiança da tripulação se esvai. É o que se observa na recente movimentação do grupo político de Flávio Bolsonaro em Santa Catarina, onde o anúncio de pré-candidaturas ao Senado revela mais que uma disputa por cadeiras: expõe a fragilidade de discursos quando confrontados com o imperativo tático.
A transferência do domicílio eleitoral de Carlos Bolsonaro para o solo catarinense, em chapa “puro-sangue” com Carol de Toni, desarticulou alianças consolidadas e preteriu figuras locais. Tal manobra, descrita como busca por uma “eleição facilitada” e ampliação do poder familiar no Legislativo, toca diretamente no princípio da subsidiariedade, tão caro à Doutrina Social da Igreja desde Pio XI. Fortalecer o que está próximo, não esmagar os corpos vivos da sociedade, significa respeitar as dinâmicas políticas e as lideranças legítimas de um estado federado. A instrumentalização de espaços regionais para estratégias de projeção nacional, em vez de edificar a política local, tende a desintegrá-la, transformando a autonomia estadual em mero degrau para ambições externas.
Contudo, o ponto mais gritante de incoerência reside nas declarações do próprio Flávio Bolsonaro sobre a reeleição presidencial. Depois de protocolar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que proíbe a reeleição – em tese, aplicada já ao vencedor de 2026 –, o senador sugere, em discurso, a possibilidade de um governo de “cinco ou oito anos” para si. É como um arquiteto que desenha uma ponte com um propósito claro, apenas para, no momento da construção, alterar seus pilares fundamentais conforme a conveniência do tráfego. Essa dissonância flagrante entre a defesa de um princípio e a projeção de uma exceção para si mesmo é um atentado à veracidade que se espera de qualquer liderança pública.
O Magistério da Igreja, sobretudo a partir de Pio XII, sempre alertou para a distinção entre “povo” e “massa”. O povo, enquanto comunidade orgânica, possui discernimento e exige a verdade. A massa, ao contrário, é manipulável por slogans e retóricas cambiantes. Quando os princípios são tratados como moedas de troca, e a integridade do discurso cede lugar ao pragmatismo imediato, o público deixa de ser povo para correr o risco de ser reduzido a massa. Não se pode, simultaneamente, pregar o fim de um sistema e planejar sua adaptação ao próprio benefício, sem incorrer em uma loucura lógica que, como Chesterton bem apontaria, é mais perigosa que a loucura da paixão, pois se veste com o manto da razão calculista.
A justiça política exige que os compromissos programáticos não sejam meros andaimes retóricos, removíveis ao menor sopro da conveniência eleitoral. Ela exige a honestidade de propósitos, a clareza de intenções e a coerência entre o que se defende e o que se projeta para si e para o país. A construção de uma ordem justa e de uma vida comum verdadeira depende da solidez dos pilares éticos da ação política, e não da flexibilidade oportunista de quem troca de bandeira ou de rota a cada eleição.
O que se assiste, portanto, não é um simples rearranjo de forças partidárias, mas um teste à fibra moral da atuação pública. A política não se esgota na acumulação de cargos ou na extensão de mandatos, mas se eleva na edificação de um projeto para a nação, lastreado na verdade e na justiça, onde o bem da cidade é o farol inegociável. Quando a bússola aponta para direções contraditórias, a navegação torna-se errática, e o destino comum, incerto. O verdadeiro líder é aquele que permanece fiel à carta de navegação, mesmo quando os ventos sopram em outra direção.
Fonte original: R7 Notícias
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.