O verbo do político, quando despido do lastro da verificação, converte-se em mero andaime verbal, incapaz de sustentar o peso da realidade. Em Minas, assistimos a mais um desses espetáculos de promessas e projeções, onde a política se confunde com o marketing e o discernimento com a propaganda.
Não há dúvida de que a imprensa tem o dever de dar voz aos parlamentares e seus planos, especialmente em tempos pré-eleitorais. A entrevista com o deputado Eduardo Azevedo, publicada pelo Divinews, cumpre, à sua maneira, essa função. Nela, o parlamentar discorre sobre os milhões destinados à saúde e segurança, as Unidades Básicas de Saúde supostamente entregues e a ascensão política de Divinópolis e de seu irmão, o Senador Cleitinho Azevedo, ao governo do estado. Mas qual o dever do jornalismo diante de um fluxo tão caudaloso de autodeclarações e projeções?
O problema não reside na ambição política, que, quando reta, é motor de grandes obras e de serviço ao povo. Reside, antes, na normalização de uma prática onde a narrativa promocional suplanta a apuração rigorosa. A política, para ser justa e eficaz, não pode ser edificada sobre a fumaça de cifras não auditadas ou de projetos ainda no papel. A `justiça` na coisa pública exige que se dê ao cidadão não a versão mais conveniente, mas a mais verdadeira dos fatos.
Quando o veículo de comunicação assume um “tom promocional”, ele abdica de sua função essencial: a de intermediar o real, não de fabricá-lo. Pio XII, em sua crítica à massificação, advertia que o `povo`, em sua dignidade, busca a verdade para formar um juízo esclarecido, não a massa passiva que absorve narrativas sem questionamento. Essa distorção, que confunde a boa-fé com a ausência de crítica, compromete a própria ordem moral pública. O orgulho de uma Divinópolis politicamente pujante, se não ancorado em fatos concretos e verificáveis, corre o risco de ser mero castelo de cartas, desfeito ao primeiro vento de escrutínio.
A `veracidade` é a virtude cardeal da comunicação. É ela que permite ao cidadão fiscalizar a aplicação de recursos, distinguir entre uma UBS “quase finalizada” e uma “pronta e inaugurada”, e comparar a “importância histórica” de uma cidade com dados objetivos. A alegação de que a matéria serve como ponto de partida para fiscalização não isenta o jornalismo de seu dever primário de verificar antes de publicar. A `humildade` de um jornalismo que reconhece seus limites e busca a confirmação externa é a garantia de que a liberdade de expressão não se tornará a liberdade de manipular.
A política não é um simulacro, nem pode ser. O caminho para uma representação política que de fato `fortaleça o que está perto` e sirva o cidadão exige que o mapa das promessas seja confrontado com o terreno das obras realizadas e dos recursos comprovadamente aplicados. A distinção entre o que é propaganda e o que é serviço público real é a linha que separa a demagogia do estadismo.
Que Divinópolis e Minas Gerais tenham seus filhos em postos de poder é legítima aspiração. Mas que a ascensão desses filhos não se faça sobre a ruína da veracidade, pois só o que é verdadeiro pode realmente edificar e libertar.
Fonte original: DiviNews.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.