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Crime Organizado: O Plano de R$11 Bilhões e as Raízes Ignoradas

Programa 'Brasil Contra o Crime Organizado' aloca R$11 bilhões. Questionamos se a repressão centralizada resolve as causas do crime ou negligencia a justiça social e a subsidiariedade.

🟢 Análise

Quando o Estado mobiliza onze bilhões de reais e a força de todo um aparato técnico e operacional contra o crime organizado, o gesto, em si, pode ser lido como um imperativo de defesa da ordem. É o que se vê no programa “Brasil Contra o Crime Organizado”, lançado com pompa e recursos vultosos: R$11 bilhões para rastreamento financeiro, inteligência policial, reforço de presídios e uma gama impressionante de equipamentos, de drones a georadares. O diagnóstico do presidente, que aponta para a infiltração do crime em “setores empresariais, políticos e institucionais”, é um reconhecimento da metástase do mal que atinge o corpo social em suas mais altas esferas. A intenção de enfrentar o crime transnacional, inclusive com o pedido público de extradição a outro chefe de Estado, sublinha a gravidade da ameaça.

No entanto, a verdadeira eficácia de tal ofensiva não se mede apenas pela cifra ou pela quantidade de tecnologia mobilizada, mas pela retidão dos meios e pela profundidade da visão. A Doutrina Social da Igreja, ao falar de justiça, não a reduz à mera repressão de delitos, mas a entende como a reta ordenação de todo o convívio humano, que exige o combate às causas, não apenas aos sintomas. O programa, em sua arquitetura predominantemente securitária e centralizada, com o grosso dos recursos oferecido como crédito via BNDES a estados e municípios, levanta preocupações legítimas sobre se estamos realmente atacando as raízes do problema ou apenas podando suas ramificações mais visíveis.

A concentração de poder na União e a ênfase no aparato repressivo correm o risco de desviar o olhar das reformas sociais e econômicas profundas, aquelas que, de fato, oferecem um futuro digno para os mais vulneráveis e esvaziam o recrutamento fácil das facções. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, advertia sobre a tendência de o Estado absorver funções que caberiam aos corpos intermediários e à própria sociedade civil. O princípio da subsidiariedade exige que a União apoie, coordene, mas não suplante a autonomia e a capacidade de resposta das comunidades locais. Estados e municípios, muitos deles já asfixiados financeiramente, terão a capacidade de arcar com os custos e a gestão desses empréstimos, ou a iniciativa se tornará mais um fardo, agravando a assimetria de poder?

Mais grave ainda é o risco de que as novas ferramentas de vigilância e controle, ao invés de desmantelar as redes criminosas de “cima para baixo”, como a retórica presidencial sugere, acabem por intensificar a repressão em comunidades periféricas já estigmatizadas. É preciso garantir que o aumento da capacidade tecnológica não se traduza em abusos de autoridade ou violações de direitos, transformando a segurança em um pretexto para a criminalização seletiva. A caridade social, que é a alma da justiça, nos impõe a atenção prioritária aos vulneráveis, a eles oferecendo não só a proteção da lei, mas a chance real de uma vida digna, por meio de investimentos em educação, formação profissional e uma economia que difunda a propriedade e a oportunidade.

A veracidade nos força a perguntar: se o crime está nos “setores empresariais, políticos e institucionais”, por que a ênfase do programa parece cair predominantemente na compra de equipamentos e no reforço de presídios, ao invés de em reformas que desestruturem essa infiltração invisível, mas poderosa? A luta contra a corrupção sistêmica, a lavagem de dinheiro em suas engrenagens mais sofisticadas e o tráfico de influência que sustenta o crime em suas esferas mais altas, exige mais do que scanners e drones. Exige uma implacável integridade das instituições e uma vontade política inquebrantável, para além dos calendários eleitorais.

Um combate integral ao crime organizado deve ir além da reação imediata e dos holofotes midiáticos. Ele exige uma visão de longo prazo, paciente e profunda, que fortaleça os corpos intermediários da sociedade, estimule a propriedade difusa e os conselhos escola-família-comunidade, fomentando virtudes como a honestidade, a laboriosidade e a temperança desde a base. Sem essa semeadura atenta, qualquer pacote bilionário corre o risco de ser uma resposta cara a um problema cujas verdadeiras soluções foram negligenciadas. O desafio, portanto, não é apenas cortar as ramificações visíveis do crime, mas plantar as sementes de uma justiça que brota da terra fértil da caridade social, nutrindo as comunidades para que não ofereçam espaço para a erva daninha da ilegalidade.

Fonte original: Diário Causa Operária

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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