Quando um corpo adoece, a sabedoria do médico não reside apenas em aliviar os sintomas externos, mas em buscar a raiz da enfermidade. Tratar apenas a febre sem investigar a infecção interna é postergar a cura, talvez até agravá-la. É com essa imagem que se deve observar a recém-apresentada Estratégia Nacional de Controle de Drogas para 2026 pelos EUA, um documento que, embora reconheça a gravidade da crise de saúde pública que assola o país com a praga das overdoses, parece se esquivar de sua própria responsabilidade primária, projetando o custo da cura sobre o vizinho.
Os números não mentem, ainda que sua interpretação possa ser enviesada. Cerca de 71 mil mortes por overdose nos EUA, mesmo que sejam uma redução de picos anteriores, são um clamor. É um problema de proporções colossais, mas o documento de 95 páginas, que menciona o México 31 vezes, foca desproporcionalmente na repressão externa e no combate ao crime organizado. Especialistas criticam a ausência de alocação orçamentária para sistemas de saúde, para a compra em massa de medicamentos que reduzam o risco de morte por fentanil, ou para programas robustos de tratamento e prevenção. A crise do fentanil, como se bem aponta, inicia-se na cultura de prescrição de opioides nos EUA. Há, portanto, uma falha na virtude da temperança e na veracidade da autocrítica, que antecedem qualquer plano eficaz.
A doutrina social da Igreja, que desde Leão XIII defende a família como sociedade primeira e a subsidiariedade como princípio ordenador, ensina que a responsabilidade não pode ser meramente exportada. O princípio da justiça, aqui, é flagrantemente posto à prova. Não se pode exigir do México a totalidade de um encargo que tem sua origem e sua maior expressão de demanda no território americano. O fluxo de armas dos EUA para o México, que municiam os cartéis e exacerbam a violência fronteiriça, é um capítulo de responsabilidade americana frequentemente minimizado. Falar de “propriedade com função social”, como ensina Leão XIII, implica também a responsabilidade pelo uso e destino de bens que, licitamente produzidos, são depois desviados para fins ilícitos e violentos, gerando um custo humano incalculável em terras alheias.
A sanidade, como diria Chesterton, é a capacidade de ver o mundo como ele é, não como nos convém que seja. A estratégia americana, ao pressionar o México — um parceiro comercial e aliado hemisférico — enquanto evita confrontar de forma proporcional outros atores globais, como a China, apontada por especialistas como fonte de precursores químicos de fentanil, revela uma assimetria de poder e uma seletividade geopolítica. Confrontar o México é, evidentemente, menos custoso que confrontar a China. Mas esta é uma lógica torta, que transfere o fardo para o elo mais fraco da cadeia, em vez de buscar uma solução verdadeiramente articulada e equitativa. A verdadeira “responsabilidade compartilhada” pressupõe que cada parte assuma o ônus correspondente à sua parcela no problema, não apenas à sua capacidade de opressão.
Uma nação que busca a vida ordenada e a paz social não se contenta em varrer a sujeira para debaixo do tapete do vizinho. É preciso um discernimento reto que reconheça que a luta contra as drogas é, primeiramente, uma batalha de ordem moral e de saúde pública interna, exigindo investimento em prevenção, tratamento e educação. Somente então, com a casa minimamente em ordem e com a coragem de assumir os próprios vícios e negligências, é que se pode construir uma parceria externa baseada na verdadeira justiça e na solidariedade, não na imposição unilateral de custos. A paz se edifica sobre a verdade, não sobre a conveniência.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.