O velho adágio de que o príncipe deve ver as coisas como elas são, e não como deveriam ser, ecoa nas esferas da política brasileira como um martelo sobre a bigorna. Nicolau Maquiavel, em sua crueza florentina, cunhou a expressão da “verdade efetiva das coisas” como guia inegociável para quem detém o timão do Estado. Não era um convite ao cinismo, mas um lembrete austero de que a realidade, com suas rugas e suas exigências, não se dobra a abstrações. No Brasil de hoje, a tese de que o governo Lula tem navegado por águas maquiavélicas, priorizando a “tática negociadora restrita ao Parlamento”, surge como um diagnóstico que clama por discernimento sobre a verdade do poder.
Nos dois primeiros mandatos, Lula ascendeu ao poder surfando uma onda de conjuntura internacional favorável e uma mobilização popular robusta, gestada na forja de sindicatos e movimentos sociais. A “virtude” do líder, então, encontrou a “fortuna” dos tempos, permitindo flexibilização macroeconômica, reajuste do salário-mínimo e programas sociais que lhe renderam aprovação recorde. A crítica de hoje, porém, aponta para um suposto “descarrilamento”, um “transformismo” que teria abandonado o ideal do “Príncipe Moderno” — aquele sujeito coletivo capaz de forjar uma nova hegemonia — em favor de uma “pequena política” de gabinete.
Contudo, é preciso encarar a “verdade efetiva das coisas” do presente sem a idealização do passado. A realidade política de hoje é outra: um Congresso fragmentado e empoderado, onde o chamado “Centrão” exerce influência decisiva, e uma ultradireita consolidada, com forte presença parlamentar e digital. Neste cenário, a “tática negociadora restrita ao Parlamento” pode não ser um vício de alma, mas uma adaptação prudente à nova configuração das forças. Seria ingenuidade, para não dizer irresponsabilidade, supor que a mesma estratégia de mobilização popular de outrora renderia os mesmos frutos em um campo de batalha tão distinto, sem antes avaliar os riscos de maior polarização e desestabilização institucional. A veracidade exige que se reconheça a complexidade do contexto, e não se confunda pragmatismo necessário com abandono de princípios, nem se critique a governabilidade com a régua de um ideal que não encontra chão na realidade presente.
A crítica que postula a “mobilização popular” como a única “mudança de chave” despreza, em certa medida, as assimetrias de poder e os mecanismos institucionais que se consolidaram. A força da oposição no Congresso e sua capacidade de contramobilização, inclusive nas redes digitais, são fatores que não podem ser ignorados. Embora a Doutrina Social da Igreja sempre incentive a participação e a formação de corpos intermediários (o que remete ao princípio da subsidiariedade), ela também adverte contra a tentação de reduzir o “povo” a uma “massa” manipulável, ou de ignorar as estruturas legítimas de autoridade. A verdadeira participação popular não é um instrumento para o governante, mas a expressão da liberdade ordenada dos cidadãos, que colaboram para o bem comum através de instituições diversas.
Nesse entrelaçado de forças, a questão não é se o governante negocia, mas o que ele negocia e em que termos. Há uma preocupação legítima com a qualidade dos empregos gerados e o risco de aprofundamento das desigualdades. Aqui, a justiça se impõe como baliza. Uma negociação parlamentar, por mais intrincada que seja, deve sempre buscar o bem comum, e não apenas a manutenção do poder ou a satisfação de interesses corporativos. A habilidade de Lula em obter aprovação para a isenção de imposto de renda e barrar a anistia para “golpistas” demonstra que a negociação, quando bem direcionada, pode servir a fins justos. Mas essa mesma negociação deve ser constantemente avaliada para que não se transforme em um “transformismo” que cede em questões essenciais de justiça social e dignidade do trabalho.
Chesterton, com sua perspicácia para desvendar as contradições modernas, poderia observar que a sanidade não reside em aplicar fórmulas prontas, mas em lidar com a realidade tal qual ela é, sem ceder à loucura lógica das ideologias que idealizam o passado ou simplificam o presente. O governante, como o capitão de uma embarcação, precisa ler os ventos e as marés, ajustando as velas sem perder de vista a estrela-guia. A “verdade efetiva das coisas”, para o polemista católico, não é o que dá certo apenas por conveniência, mas aquilo que, no horizonte da reta razão e da lei natural, caminha para a ordem justa da cidade.
O desafio de Lula, e de qualquer liderança neste tempo, não é o de escolher entre um ideal irrealista e um pragmatismo estéril, mas o de infundir a política da realidade com um propósito que transcenda a mera tática: edificar uma sociedade onde a justiça e a dignidade floresçam, mesmo nas mais árduas negociações.
Fonte original: racismoambiental.net.br
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.