A cena política brasileira, um palco por excelência da reinvenção, assiste agora ao esforço de um candidato que busca refazer sua imagem pública, tentando dissociar-se do passado mais ruidoso para abraçar um novo rótulo: o “Bolsonaro moderado”. O vídeo viral, em que o senador Flávio Bolsonaro e sua esposa celebram essa metamorfose – ele, o “Bolsonaro que tomou vacina”; ela, a “reeducadora” –, traduz uma estratégia calculada para atrair um eleitorado refratário ao radicalismo, seduzindo jovens, a classe média e mulheres com a promessa de um diálogo que as urnas de 2022 pareceram exigir. As pesquisas, com seu frio pragmatismo, já indicam a eficácia de tal manobra.
Contudo, o ceticismo não é mera idiossincrasia de opositores, mas uma exigência elementar da **justiça** e da **veracidade** que se espera da vida pública. Os fatos que emolduram a trajetória do senador oferecem uma contra-narrativa incômoda. O esquema de “rachadinha”, investigado pelo Ministério Público por peculato e lavagem de dinheiro em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, não desapareceu apenas porque o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal anularam as provas por questões processuais. A “ausência de condenação criminal” invocada pelo senador, embora juridicamente válida, não apaga o peso moral das movimentações financeiras atípicas de seu ex-assessor, Fabrício Queiroz, nem a documentada série de pagamentos de boletos de despesas pessoais da família Bolsonaro com dinheiro que o MP alegou ser desviado. A anulação processual é uma questão de forma, não de mérito; a sombra do desvio de recursos públicos permanece como uma ferida na probidade administrativa.
Mais grave ainda é o histórico de associações que permeia sua carreira parlamentar. As homenagens a Adriano da Nóbrega, o miliciano expulso da Polícia Militar, e o emprego de sua mãe e então esposa no gabinete de Flávio, não podem ser convenientemente descartadas como lapsos de juízo. Tampouco a oposição sistemática à criação de uma CPI para investigar milícias na Alerj em 2008 é um detalhe irrelevante. Tais atos, somados ao endosso a Ronald Paulo Alves Pereira – posteriormente condenado pelo assassinato de Marielle Franco –, desenham um panorama que transcende a mera “proximidade”. Configuram um padrão de conduta que, no mínimo, demonstra uma alarmante indiferença aos perigos do crime organizado e uma estranha afinidade com figuras que operam à margem da lei, minando a confiança nos **alicerces da cidade** e na ordem que protege o cidadão.
A mais recente revelação, a busca por aportes de um banqueiro preso e investigado, Daniel Vorcaro, para um “filme privado sobre o próprio pai”, acrescenta outra camada de preocupação. Ainda que o senador negue ter oferecido vantagens ou intermediado negócios, a mera solicitação de financiamento privado, de um indivíduo em tal situação, por quem ocupa um cargo público de influência, acende um alerta sobre potenciais conflitos de interesse e a permeabilidade entre o poder político e os interesses escusos. Um homem público tem o dever de ser transparente não apenas na lei, mas na aparência, evitando qualquer situação que possa gerar dúvida sobre sua integridade.
A pretensão de “moderação”, portanto, não pode ser uma veste nova que encobre uma substância velha. A verdadeira moderação, como a Igreja ensina, não é uma flexibilidade de princípios ou uma concessão ao pragmatismo sem escrúpulos. É uma virtude que ordena as paixões e os meios aos fins justos, que busca a concórdia não pela acomodação à iniquidade, mas pela firmeza na busca da verdade e do que é devido a todos. Um líder que pleiteia a condução da nação deve demonstrar não apenas uma disposição ao diálogo, mas uma integridade inabalável em relação ao dinheiro público, uma clareza inequívoca contra o crime organizado e uma total transparência em suas relações financeiras. A edificação da vida comum exige que os governantes sejam paradigmas de retidão, e não equilibristas retóricos que buscam refazer sua biografia a cada ciclo eleitoral. A credibilidade, uma vez corroída, não se restaura com um simples anúncio de mudança de temperamento, mas com um histórico consistente de probidade.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.