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PL em Minas: Cleitinho Azevedo e a Contradição Partidária

PL, vitrine antipetista, impulsiona Cleitinho Azevedo em MG, com propostas alinhadas ao PT. A análise revela a flexibilidade seletiva do partido e o custo da identidade por votos.

🟢 Análise

A corte da opinião pública assiste a um paradoxo em Minas Gerais: o Partido Liberal, que se redefiniu como baluarte do antipetismo e da direita bolsonarista, prepara-se para alçar um de seus principais nomes, o senador Cleitinho Azevedo, à disputa pelo governo do estado. A incongruência não reside na ambição eleitoral, intrínseca à natureza dos partidos, mas na substância, pois Cleitinho, em sua trajetória, tem defendido propostas alinhadas ao governo federal do PT e evitado o embate ideológico frontal que se tornou a marca registrada de sua legenda. É a sanidade política contra a loucura lógica das conveniências.

A ficha factual não mente: o senador encampou o debate sobre o fim da escala 6×1 e apoiou o “Gás do Povo”, um programa que prevê a distribuição gratuita de recargas de botijão, propostas que, inegavelmente, flertam com agendas que a cartilha bolsonarista e antipetista do PL rejeita massivamente. Contudo, enquanto um prefeito do próprio PL, Inácio Franco, é alvo de pedido de expulsão por apoiar uma pré-candidatura do PT ao Senado, Cleitinho Azevedo tem suas divergências minimizadas pela cúpula partidária. “Não vamos pôr freio em ninguém”, disse o presidente estadual do partido, Zé Vitor, revelando uma assimetria na aplicação da disciplina que fere a virtude da justiça. O que é tolerável para o nome forte, torna-se anátema para o quadro menor?

Essa flexibilidade seletiva não é apenas uma questão de pragmatismo eleitoral, mas um sintoma de uma diluição da veracidade na esfera pública. Um partido que se constrói sobre uma identidade ideológica tão rígida, vendendo-se como a “principal vitrine do antipetismo”, ao abraçar um candidato que não compartilha desse mantra “acima de qualquer circunstância”, arrisca esvaziar sua própria marca. Não se trata de defender o radicalismo cego, mas de exigir do partido um mínimo de coerência com aquilo que ele promete ser ao eleitor. O ex-presidente Jair Bolsonaro filiou-se ao PL em 2021, redefinindo o perfil da legenda e associando-a indissoluvelmente ao bolsonarismo; desfigurar essa identidade agora, por cálculo eleitoral, é tratar o “povo” como “massa” (na distinção de Pio XII), uma coleção de votos a ser arrebanhada, e não como uma comunidade política que busca clareza e princípios.

A justificativa de que Cleitinho “não defende pautas que são características ideológicas do governo” em sua totalidade, ou que “não abraça pautas identitárias ou associadas ao campo progressista”, é um malabarismo retórico. A questão não é se o senador é um “agente esquerdista”, mas se a sua agenda pública é compatível com a plataforma que o partido jura defender. A “crítica à estatolatria” de Pio XI, que adverte contra a idolatria do Estado, pode ser aqui transposta para a idolatria da vitória eleitoral a qualquer custo, que subordina a ordem dos princípios à mera conveniência do momento. Tal pragmatismo desordenado, desprovido da temperança necessária, torna a política um jogo de aparências, onde o “não é X, é Y” vira um chavão para encobrir a falta de substância.

Mesmo a alta intenção de votos de Cleitinho Azevedo, alardeada por alguns aliados, não redime a incoerência. A popularidade é um bem volátil; a integridade, um alicerce sólido. Se o partido silencia diante de pautas que, em outros contextos, seriam motivo de excomunhão partidária, apenas para garantir um nome forte nas urnas, ele abdica de sua função de formação cívica e de clareza doutrinária. A longo prazo, a perda de credibilidade pode ser mais devastadora do que qualquer derrota eleitoral pontual. Um partido que não se mantém fiel à sua própria narrativa é um navio que içou a bandeira de outra nação, ou de nenhuma nação, tornando-se uma embarcação pirata no mar da política.

A história política é um cemitério de siglas que trocaram seus princípios por votos. O PL, ao tentar costurar uma nova bandeira com retalhos tão díspares, arrisca não erguer um novo estandarte, mas apenas um manto rasgado que cobre sua própria identidade, confundindo o eleitor e desfigurando a ordem moral da vida comum.

Fonte original: Jornal Estado de Minas | Not�cias Online

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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