A morte trágica de Rogers Devia e Eder Cardona, alvejados em Cubarral, departamento de Meta, antes mesmo do apagar das luzes eleitorais na Colômbia, impõe uma realidade sombria à consciência cívica. O ex-prefeito e seu assessor político foram assassinados em uma região já conhecida por ser palco de tensões e disputas entre grupos armados. A violência que ceifa vidas em pleno processo democrático é uma chaga aberta no corpo social e uma ameaça genuína à liberdade de expressão e à participação política, um mal que clama por justiça imediata e irrestrita.
Contudo, no imediato rescaldo do sangue, surge uma névoa retórica que, ao invés de iluminar os fatos, pode obscurecê-los. As palavras do candidato Abelardo de La Espriella, que rapidamente atribuiu os assassinatos a um “narcoterrorismo” covarde, visando diretamente sua campanha, carregam o peso da emoção e da urgência política. Ele os descreve como “patriotas” e “verdadeiros Tigres”, cujo “único crime foi acreditar na nação”. Por mais que a dor e a indignação sejam compreensíveis, o ministro do Interior, Armando Benedetti, foi categórico: os investigadores ainda desconhecem a motivação específica do ataque a Devia. Essa lacuna factual é a pedra no caminho de qualquer juízo precipitado.
O princípio tomista da distinção de causas é aqui um guia luminoso. Há a causa próxima – quem puxou o gatilho, por qual razão específica – e há as causas remotas, como o clima generalizado de insegurança e a presença de grupos criminosos na região. Confundir o contexto com a autoria, a atmosfera com o motivo concreto, é um atalho perigoso para a verdade. A instrumentalização de uma tragédia, por mais bem-intencionada que seja, em um período eleitoral, corre o risco de desviar o foco da investigação séria e transparente que as vítimas e a nação merecem. Isso não é zelar pela `justiça`, mas manobrar com a percepção.
Pio XII, ao diferenciar “povo” de “massa”, alertava para os perigos da manipulação da opinião pública, especialmente em momentos de alta carga emocional. Quando a narrativa precede o fato, o que emerge não é um povo discernindo a verdade, mas uma massa reagindo a um estímulo. A atribuição de culpa e motivação, antes mesmo de qualquer prova concreta, pode servir a agendas políticas, mas dificilmente serve à `veracidade` e à reconstrução da `ordem moral pública`. O desafio é permitir que a autoridade legítima – os investigadores – traga à luz os fatos inquestionáveis, sem pressões externas que forcem conclusões predeterminadas.
A complexidade do departamento de Meta, disputado por múltiplos atores com variadas agendas criminais e territoriais, exige que a busca pela verdade seja meticulosa. Não basta apontar para a sombra dos grupos armados; é preciso identificar os rostos dos assassinos e a razão precisa de seus atos. Ignorar essa exigência é simplificar uma realidade multifacetada em um binômio de “democracia contra o terror”, o que, embora retoricamente potente, pode encobrir outras motivações e retardar a chegada da verdadeira `justiça`.
A edificação de uma vida comum digna e o resguardo da integridade de um processo eleitoral dependem, em grande medida, da coragem de buscar a verdade, mesmo quando ela não se alinha perfeitamente às narrativas mais convenientes. A pressa em rotular, em tempos de sangue derramado, pode gerar clamor, mas dificilmente constrói a paz social fundada na `justiça`. A Colômbia precisa menos de fogos de artifício verbais e mais da luz fria e implacável da investigação.
Fonte original: GZH
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.