A cada esquina do Vale do Iguaçu, parece brotar um novo templo dedicado ao corpo. Quarenta e quatro academias para oitenta e oito mil habitantes é um número que, à primeira vista, celebra uma vitória da saúde, um despertar pós-pandêmico onde o cuidado se tornou prioridade incontestável. Há quem afirme que não é mera moda, mas um “novo normal”, um estilo de vida que veio para ficar, com a promessa de que é “muito melhor fazer academia do que tomar remédio”. Este é, sem dúvida, um sinal de maior consciência sobre a importância da atividade física, frente a dados alarmantes de obesidade e sedentarismo que afligem grande parte da nação.
Contudo, por trás do brilho dos halteres e da energia das esteiras, ecoa uma questão inescapável: para quem é esse “novo normal”? Se um em cada cinco brasileiros frequenta academias e o custo médio da mensalidade se fixa em R$110, qual o destino dos outros quatro? A preocupação é legítima: o florescimento comercial desse mercado, ao invés de ser um motor de saúde pública abrangente, pode, paradoxalmente, aprofundar desigualdades e transformar um direito fundamental em um privilégio pago. Quando a saúde vira produto, os vulneráveis são os primeiros a ficar à margem.
A Doutrina Social da Igreja, inspirada em Pio XI e sua defesa da justiça social, nos ensina que o acesso aos bens que permitem uma vida digna não pode ser refém exclusivo das dinâmicas de mercado. A saúde é um bem humano, e sua promoção exige uma visão mais ampla que a mera oferta de serviços pagos. Reduzir o “cuidado com a saúde” à frequência assídua a uma academia particular é um reducionismo perigoso, que ignora os determinantes sociais, econômicos e ambientais da doença e do bem-estar. Não basta que o corpo se mova; é preciso que a alma e a comunidade encontrem seu lugar.
É aqui que a virtude da temperança se faz crucial. O anseio por um corpo saudável é bom, mas o culto excessivo à imagem ou a adesão frenética a uma “trend” podem desvirtuar o propósito, transformando a busca por bem-estar em um imperativo estético-consumista. Quando a ausência de um “estilo fitness” é rotulada como “falta de perspectiva de vida”, abre-se a porta para o julgamento e a estigmatização, em vez da solidariedade. Chesterton, em sua fina ironia, talvez nos alertasse para a loucura lógica de uma sociedade que, na ânsia de ser “saudável”, acaba por adoecer em outras dimensões, escravizada por padrões e aparências.
O verdadeiro desafio, portanto, não é demonizar o investimento privado em saúde ou a iniciativa dos empreendedores, mas integrá-los numa visão que sirva ao todo. A expansão das academias é um sinal ambíguo: louvável no que indica de maior consciência individual, mas problemático no que pode negligenciar de responsabilidade social e política. É imperativo que as políticas públicas fortaleçam os “corpos intermediários” – a família, a escola, as associações de bairro – e invistam em espaços públicos gratuitos e seguros, em educação nutricional e em promoção de uma cultura de movimento que seja acessível a todos, independentemente da renda. A vitalidade do povo, como nos recordava Pio XII, não se confunde com a massificação de um consumo.
Uma saúde autêntica, enraizada na vida comum da cidade, floresce não apenas com o vigor dos músculos, mas com a equidade do acesso, a riqueza dos laços comunitários e a verdade de um bem-estar que não se mede pela balança de uma mensalidade, mas pela dignidade de cada pessoa. Sem essa base, o que chamamos de “novo normal” pode ser apenas uma bolha de privilégio, com promessas que, ao final, deixam a maioria ofegante e marginalizada.
O futuro da saúde pública não se erguerá sobre tendências passageiras, mas sobre os alicerces firmes de uma vida justa e acessível a todos.
Fonte original: Vvale
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.