A confiança, alicerce invisível sobre o qual se ergue qualquer sociedade digna, é posta à prova de fogo quando o que deveria nutrir a vida se transforma em veneno. A história de Roo, de sete anos, e Kayan, de treze, envenenados por doses industriais de vitamina D camufladas em frascos prescritos para o bem, não é um acidente isolado, mas uma cicatriz escancarada na teia de segurança pública, revelando a frouxidão do tecido que deveria proteger o mais vulnerável. Um produto com sete vezes a concentração anunciada, distribuído sob o manto da inocente categoria de “suplemento”, não é apenas uma falha de produção; é uma profunda lesão à veracidade, um grito silencioso que exige a reordenação urgente dos bens.
A TriOn Pharma, fabricante do Aactive D3, produziu e distribuiu um lote que expôs crianças a lesões renais agudas e hipercalcemia. O Professor Stuart Ralston, em seus quarenta anos de carreira, jamais havia testemunhado tal envenenamento. A falha primária é incontestavelmente do fabricante, que não garantiu a qualidade e a segurança de seu produto. Aqui, a Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, reitera que a propriedade e a produção possuem uma função social inalienável. O lucro não pode preceder a saúde e a vida, especialmente quando se trata de bens destinados ao consumo humano. A honestidade na rotulagem e a integridade na fabricação são deveres de justiça elementares, sem os quais o mercado se torna uma selva e a confiança um escombros.
Mais grave que a falha de um único produtor, contudo, é a falha sistêmica que a permitiu e a perpetuou. A Agência Reguladora de Remédios e Produtos para Assistência Médica (MHRA) do Reino Unido não regula a vitamina D em alta dosagem, classificando-a como “suplemento alimentar”, de responsabilidade da Agência de Padrões Alimentares (FSA). Essa distinção burocrática cria uma lacuna moral e regulatória abissal. Como pode uma substância com potencial letal, capaz de causar danos orgânicos severos e exigir meses de recuperação, ser tratada com a mesma leviandade de um tempero culinário? O Estado, ao renunciar à vigilância sobre produtos que têm efeitos biológicos análogos a medicamentos, trai o princípio da ordem moral pública que Pio XII tanto defendeu, deixando o povo à mercê da irresponsabilidade corporativa e da cegueira legalista.
Ainda mais estarrecedora foi a cascata de ineficácia na comunicação do recall. O aviso da FSA, emitido em janeiro, levou três meses para chegar à farmácia que abasteceu Roo. A mãe de Kayan só soube do perigo em abril, semanas depois de seu filho estar internado com os mesmos sintomas de intoxicação. A afirmação da TriOn Pharma de que as notificações foram enviadas por “canais estabelecidos” ressoa como uma ironia macabra, pois esses canais se mostraram um labirinto inócuo. A subsidiariedade, um pilar da Doutrina Social, exige que a autoridade superior auxilie as comunidades e indivíduos, sem suprimir suas funções. Aqui, nem o fabricante nem os reguladores conseguiram fazer a informação vital fluir até as farmácias e as famílias, invertendo a lógica da proteção.
O sofrimento das crianças, suas internações e a angústia dos pais – “senti-me desamparada”, “eu vinha lentamente envenenando meu filho” – revelam a real dimensão do custo de tal negligência. Não é apenas uma questão econômica ou logística; é uma questão de dignidade da pessoa humana. O corpo da criança, em sua fragilidade inocente, foi o campo de batalha de uma guerra invisível entre o lucro desmedido e a burocracia desatenta. A vida de Roo, que quase foi extinta e levou um ano para normalizar-se, clama por um juízo claro e ações concretas.
O episódio de Roo e Kayan não permite meias-palavras. É um paradoxo da modernidade que se orgulha de sua capacidade técnica e de seu controle sobre a informação, mas falha em um dever tão básico quanto proteger a saúde dos pequenos. Não se trata de demonizar os suplementos em si, mas de exigir que qualquer substância que impacte a saúde com tal potência receba a regulação correspondente ao seu risco. A solução passa por redefinir os critérios de classificação de produtos, fortalecer a fiscalização pré-mercado, e, sobretudo, construir canais de comunicação de recall que sejam ágeis, abrangentes e redundantes, capazes de levar a verdade ao ponto final da cadeia: a família. Somente assim o “veneno da falha” poderá ser convertido em antídoto de responsabilidade e justiça.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.