Um ato referendado pelo voto popular, por vezes, assemelha-se a uma peça de teatro bem montada, na qual a plateia, persuadida pelo enredo, aplaude o que parece ser uma vitória. Na Virgínia, os eleitores aprovaram um novo mapa de distritos eleitorais, eufemisticamente chamado de ‘redesenho’, que, na verdade factual, projeta uma vantagem desproporcional para um único partido, o Democrata, com a possibilidade de arrematar 10 dos 11 assentos da delegação estadual na Câmara. Celebra-se a ‘defesa da democracia’, mas o cenário que se pinta é o de uma distorção da representação, sob o aplauso da legitimidade formal.
A aprovação, em 21 de abril de 2026, é um fato. Democratas, de Barack Obama a figuras atuais, celebraram nas redes sociais, enquanto republicanos lamentaram, acusando opositores de ‘roubar’ as eleições. A ‘guerra das cadeiras’ entre os dois partidos pelo controle do Congresso norte-americano, deflagrada pelo presidente Donald Trump e com vitórias alternadas em outros estados, encontra aqui um novo e controverso capítulo. Virgínia se torna o nono estado a reconfigurar seu mapa eleitoral visando as ‘midterms’ de novembro de 2026, mas o resultado é alarmante para a justiça na representação política.
É aqui que a questão se aprofunda. Uma coisa é a prerrogativa legal de redesenhar distritos; outra, o resultado final que tal redesenho produz. Quando um mapa eleitoral, mesmo chancelado por referendo, projeta uma vantagem tão esmagadora para um partido – 10 de 11 assentos – a linha entre a reforma legítima e o ‘gerrymandering’ partidário se torna tênue, quase inexistente. A Doutrina Social da Igreja, ao falar da ordem na comunidade política, enfatiza que a representação deve ser um reflexo da sociedade, e não um instrumento de hegemonia facciosa. Um referendo que legitima uma distorção tão grave não serve ao bem da cidade, mas à conveniência de uma facção.
Pio XII advertia contra a transformação do ‘povo’ em ‘massa’, um conjunto manipulável, mais suscetível à emoção do que à razão. Um referendo, se não balizado pela reta razão e pela busca da justiça, pode transformar a voz do povo numa ferramenta da massa para consolidar um poder particular. Não se trata de negar o processo democrático, mas de questionar a sua finalidade quando ele instrumentaliza a vontade popular para um desequilíbrio tão acentuado. São Tomás de Aquino nos lembra que a lei, para ser justa, deve estar ordenada ao bem comum, e não a bens particulares. O que o líder republicano Mike Johnson chamou de ‘medida extrema’ não é apenas retórica partidária; é a constatação de que a liberdade ordenada cedeu lugar à supremacia de um grupo. Como Chesterton, com seu paradoxo mordaz, poderia observar, a modernidade muitas vezes clama por liberdade enquanto, na prática, engendra novas formas de dominação, sob o manto de processos aparentemente legítimos. A ‘defesa da democracia’ vira, assim, a defesa de um arranjo conveniente.
As mútuas acusações de ‘roubo’ eleitoral, vindas de ambos os lados, são um sintoma grave de que a veracidade na política está em crise. Quando o mérito de uma disputa se reduz à habilidade de redesenhar mapas em benefício próprio, a confiança nas instituições se esvai. A justiça eleitoral não se resume a um cálculo de votos que legitimem um mapa, mas à garantia de que cada voto tem peso e que a representação é genuína, plural e não esmagadora. É a essência da liberdade ordenada de Leão XIII: a ordem não é ausência de liberdade, mas a sua justa disposição para o florescimento de todos.
Um sistema político que se permite ser remodelado para garantir uma vantagem tão desproporcional, mesmo com o aval das urnas, não se robustece; ele se corrói por dentro. A Virgínia, com sua decisão, não pavimenta um caminho de maior representatividade, mas institucionaliza uma armadilha. A verdadeira estabilidade de uma nação reside não na vitória de uma facção, mas na justiça intrínseca de suas regras, na veracidade de seu debate e na capacidade de garantir que, em sua casa comum, todos tenham voz e lugar, não apenas por permissão, mas por direito.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.