Na encruzilhada do tabuleiro político de Mato Grosso do Sul, onde as alianças são forjadas e desfeitas com a fluidez das águas pantaneiras, surge a figura do deputado federal Vander Loubet. Com seis mandatos consecutivos, uma trajetória que remonta aos anos 80 e a reputação de ser um mestre na arte da “conciliação” e da “viabilização de emendas”, Loubet projeta sua candidatura ao Senado em 2026. É um político que, como atestam amigos e adversários, tem na “conversa” a matéria-prima e na construção de “pontes” a estratégia para sobreviver na selva política, onde “animal que anda só pode virar comida de onça”. Sua absolvição unânime pelo Supremo Tribunal Federal em 2020, em um dos múltiplos inquéritos derivados da Lava Jato, corrobora a imagem de um jogador experiente que soube navegar por tempestades judiciais.
Contudo, a virtude de saber “conversar com todos” — elogiada por prefeitos que recebem suas emendas e por ex-aliados que testemunham seu trânsito até mesmo com o PL — não é, por si só, um escudo invulnerável. Há uma legítima e crescente preocupação de que essa flexibilidade possa transmutar-se em um pragmatismo excessivo, diluindo a própria identidade política. Quando a “conciliação a todo custo” se torna o método principal, o risco é que a construção de pontes seja percebida não como um caminho para a unidade ou para um projeto de Estado, mas como um atalho para a manutenção de poder, carente de um alicerce ideológico e programático claro para o Mato Grosso do Sul.
A política, em sua essência mais nobre, não se resume ao balcão de troca de interesses ou à mera distribuição de recursos via emendas parlamentares, por mais valiosas que sejam para os municípios. A Doutrina Social da Igreja, ao falar da ordem dos bens, ensina que a ação política deve estar ordenada à promoção do bem da comunidade, que transcende a soma dos benefícios individuais ou partidários. É a busca pela justiça social que edifica uma sociedade em bases sólidas, e não apenas a habilidade de “captar recursos” que, sem um propósito maior, pode se assemelhar a uma forma de clientelismo velado. A pergunta incômoda permanece: qual é o produto final que se oferece ao estado, para além da permanência no poder e da teia de emendas?
Neste cenário, a veracidade é a virtude cardeal que se impõe. Se “a matéria-prima da política é a conversa”, o “produto final” deve ser um projeto autêntico, uma visão clara e coerente para o futuro de Mato Grosso do Sul, que não se esgote na figura do político articulador. A absolvição judicial, embora importante, não apaga por completo as “suspeitas e citações em investigações” passadas, e a percepção pública exige uma idoneidade que se manifesta não apenas na letra da lei, mas na transparência e na coerência inabalável dos atos. Sem isso, a estratégia de “conciliação” com partidos ideologicamente opostos, como o PL, arrisca ser vista como puro oportunismo, uma tática de camaleão que, ao tentar agradar a todos, termina por não representar ninguém de fato.
Um político que, ao longo de quatro décadas, atravessa o espectro partidário com tanta destreza pode ser elogiado por sua longevidade, mas também questionado por sua capacidade de oferecer um rumo. Chesterton, em sua fina ironia, poderia observar que a sanidade, na política, não está em aceitar todas as contradições, mas em reconhecer que um edifício precisa de pilares, não de uma flexibilidade que o desmonte em cada vendaval. As alianças são vitais, sim, mas devem ser tecidas sobre um tecido de princípios compartilhados ou, no mínimo, sobre a clareza inegociável das diferenças, para que o eleitor possa discernir o que é convicção e o que é conveniência.
A lealdade, na política, não é apenas para com o líder nacional – cuja popularidade pode ser um vento que muda de direção –, mas para com o povo e com a própria identidade que se professa. A atuação de Vander Loubet, ao “articular a ida do PT para o governo Eduardo Riedel e, posteriormente, o rompimento”, pode ser lida como um sinal de habilidade tática, mas também como um alerta sobre a confiança e a perenidade de suas “pontes”. O eleitor de Mato Grosso do Sul, em sua busca por representação, tem o direito de exigir mais do que um exímio “viabilizador de recursos”; busca um projeto que, enraizado em convicções claras, construa o futuro do estado com princípios, e não apenas com a inconstância da negociação.
A tarefa do político não é apenas viver, mas conviver com um propósito claro, edificando a polis sobre um alicerce de valores inegociáveis.
Fonte original: Campo Grande News
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.