A política, muitas vezes, assemelha-se a um grande edifício público, cuja robustez e beleza dependem da solidez de cada tijolo e da integridade da argamassa. Mas, em Brasília, o que se vê é a frenética movimentação dos mestres de obra do governo, não para erguer novas paredes em praça aberta, mas para “reparar” fissuras em gabinetes fechados, garantindo que o fluxo legislativo, qual rio represado, volte a correr por um canal negociado a portas cerradas. A intensa diplomacia interna do Planalto com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para destravar pautas cruciais em ano eleitoral, é um sintoma desta arquitetura política.
Os fatos são claros: ministros e líderes governistas foram escalados para testar a “temperatura” da relação, buscando um encontro que pacifique ânimos e assegure a aprovação de projetos estratégicos. De um lado, a Política Nacional de Minerais Críticos, discutida até em viagem internacional com líderes estrangeiros, cuja celeridade na Câmara já foi garantida e espera-se no Senado. De outro, o fim da jornada 6×1, uma aposta popular para as eleições de outubro. A pressa é notória, e o temor de “empecilhos” legislativos permeia os corredores do poder.
Ora, a necessidade de diálogo entre Executivo e Legislativo é um pilar da governabilidade democrática. Seria ingênuo negar a barganha como elemento da política. Contudo, quando o eixo de um governo inteiro parece girar em torno da “pacificação” de um único ator, e a aprovação de leis de alto impacto depende de negociações de bastidores para “evitar empecilhos”, o que se questiona é a própria integridade do processo legislativo. Não é apenas pragmatismo; é uma redução perigosa da ordem política à mera arte do cálculo.
A Doutrina Social da Igreja adverte que a autoridade legítima se exerce para o bem da cidade, não para o proveito particular ou eleitoral de alguns. Pio XI, ao criticar a estatolatria e defender a subsidiariedade, já apontava o risco de que os corpos intermediários da sociedade — e o Congresso, enquanto corpo representativo, é um deles — tivessem sua vitalidade esmagada por lógicas de poder centralizadas. Aqui, a voz plural do Legislativo é silenciada ou direcionada pela mediação de uma única figura, transformando o debate público em um monólogo negociado. A justiça no processo de criação das leis exige transparência e a consideração dos bens em sua reta ordem, onde o impacto ambiental e social de minerais críticos ou a real necessidade econômica de uma nova jornada de trabalho deveriam ser avaliados com profundidade, e não acelerados por cronogramas eleitorais.
G. K. Chesterton, em seu paradoxo sobre a sanidade, nos lembraria que a lógica levada ao extremo, desvinculada do senso de proporção e da realidade moral, pode beirar a loucura. A “lógica” de que a governabilidade a qualquer custo exige tais concessões é uma espécie de demência política que corroí a veracidade. As políticas públicas, especialmente aquelas que afetam a vida de milhões de trabalhadores ou o patrimônio natural da nação, não podem ser meras peças em um tabuleiro de xadrez eleitoral. Quando a finalidade social de uma lei se subordina ao cálculo político de curto prazo, o resultado é uma corrosão da confiança pública e um desvirtuamento da própria ideia de legislação.
O custo político e de princípios dessas negociações silenciosas é alto. Ele mina a responsabilidade dos representantes e a confiança dos representados. Uma sociedade que se acostuma a ver suas leis mais importantes aprovadas por acertos de conveniência, e não por convicção e debate franco, desaprende o valor da vida comum e da participação cívica.
A verdadeira estabilidade institucional não se constrói com acordos de gaveta que visam apenas à próxima eleição, mas com a honestidade de propósitos, a veracidade no debate e a justiça que eleva o processo legislativo acima do mero balcão de negócios. Governar é mais do que mover as peças de um jogo; é servir à ordem moral que sustenta a nação, mesmo quando o relógio eleitoral acelera.
Fonte original: Jovem Pan – Esportes, entretenimento, notícias e vídeos com credibilidade
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.