O dispositivo que antes lançava petiscos para pets, hoje arremessa explosivos sobre cabeças inimigas. A frase do empreendedor Iaroslav Azhniuk, fundador da Petcube e agora artífice de drones militares com inteligência artificial, é a súmula perfeita de uma guerra que transfigura não apenas paisagens e destinos, mas a própria moral da inovação. Na Ucrânia, ante a brutalidade da agressão russa, assistimos à metamorfose de um vibrante polo tecnológico civil em uma fábrica de instrumentos de guerra movidos por algoritmos, como os drones FPV da Odd Systems, capazes de voar autonomamente os últimos 400 metros para localizar e atingir alvos. Mais de 2.000 startups de tecnologia militar emergem, alavancadas por um investimento estrangeiro que saltou para cem milhões de dólares, num esforço compreensível de autodefesa.
É inegável a urgência existencial que impulsiona tal virada. Quando o inimigo já avança sem escrúpulos, a busca por meios eficazes de proteção da vida e da soberania nacionais não é uma opção, mas um dever grave. A precisão aumentada prometida por sistemas de IA como o YOLO, que delimita alvos e evita civis, é apresentada como uma melhora, em tese, sobre a indiscriminação de ataques de artilharia ou mísseis. A tese da necessidade é forte: conter o agressor, proteger a população e minimizar as próprias baixas são bens legítimos que a nação defende, e a tecnologia surge como uma arma nesse front desigual.
Contudo, a velocidade estonteante com que a indústria ucraniana mergulha na autonomia letal da IA esbarra em questões que ultrapassam a mera eficiência tática. A Doutrina Social da Igreja, alicerçada na justiça e na dignidade da pessoa humana, sempre advertiu que a liberdade, inclusive a de inovar, deve ser ordenada à lei moral. Pio XII, ao diferenciar “povo” de “massa”, insistia na responsabilidade individual e na clareza da autoridade. Onde reside a responsabilidade moral e jurídica quando um algoritmo, ainda que “parcialmente” autônomo, toma a decisão final de tirar uma vida? A promessa de delimitação geográfica, por mais sofisticada que seja, não anula o risco de erro ou de vieses algorítmicos. O controle humano significativo não é uma barreira burocrática; é a salvaguarda essencial contra a desumanização da guerra e a diluição da culpa em meio a linhas de código.
O discurso de que “poderíamos nos regular até a morte” soa, para o Polemista Católico, como a soberba que Chesterton tanto expôs ao denunciar a loucura lógica das ideologias. Não se trata de refrear a inovação por medo irracional, mas de enquadrá-la na ordem da razão e da moral. A humanidade, em sua busca por progresso, tem o dever de discernir o que é lícito e o que é perigoso, sob o risco de criar um monstro que não conseguirá mais controlar. Abrir mão da regulação ética é entregar o futuro da guerra a uma corrida descontrolada, onde a vantagem tecnológica de hoje pode ser a vulnerabilidade moral e existencial de amanhã. Que garantias há de que a Ucrânia, ao defender-se com tais meios, não estará inadvertidamente abrindo uma caixa de Pandora para si e para o mundo?
Pois, ao legitimar a proliferação de sistemas de armas autônomas letais (LAWS), mesmo sob o pretexto da mais justa defesa, a Ucrânia corre o risco de forjar um precedente perigoso. Como assegurar que essas tecnologias não cairão em mãos de atores não estatais ou regimes autoritários no futuro? Como reorientar uma economia intensamente militarizada após o conflito, se o capital humano e os investimentos se concentraram na destruição? A construção da paz duradoura exige mais do que a capacidade de revidar; exige um compromisso com princípios que garantam que a vida humana não seja reduzida a um alvo digital, e que a tecnologia, essa formidável ferramenta, sirva à vida, não à sua aniquilação anônima.
A nação que se defende merece todo o apoio moral e material. Mas a defesa não pode prescindir da alma, sob pena de, na ânsia de derrotar um inimigo sem escrúpulos, tornar-se refém de uma máquina sem alma. A verdadeira fortaleza está em combater com justiça e em preservar a humildade diante do mistério da vida, mesmo em meio ao fragor da batalha. Afinal, uma vitória que corrompe a essência da dignidade humana, ao terceirizar a decisão final de vida ou morte a um código sem consciência, é uma vitória que já carrega consigo os germes de sua própria derrota moral.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.