A cada retorno, a estrada se reconfigura. Mas a confiança, essa via vital do comércio e da convivência, não se edifica sobre promessas inconsistentes nem sobre um histórico de idas e vindas. O anúncio da Suzuki, de reestrear no Brasil em 2026 com a versão elétrica do Vitara, é mais do que um dado de mercado; é um convite à reflexão sobre a responsabilidade de uma marca e a veracidade de sua proposta num cenário em mutação.
A Suzuki, que em 2026 celebrará 25 anos de presença no Brasil – ainda que essa presença tenha sido pontuada por interrupções significativas em 2003 e no final de 2024 –, aposta agora na onda elétrica. O novo Vitara, 100% elétrico, surge como resposta às novas e rigorosas normas ambientais e de segurança, que tornaram o Jimny Sierra inadequado para o mercado. É uma adaptação pragmática, sim, mas a conformidade regulatória, por si só, não esgota a virtude da probidade comercial.
A questão central reside na proposta de valor apresentada. Com um preço sugerido de R$ 259.990 e uma autonomia estimada de 293 km (pelo padrão Inmetro), o Vitara elétrico entra num ringue onde concorrentes como o BYD Yuan Pro (R$ 182.990) e o Omoda E5 (R$ 209.990) já lutam por preço e onde o Volvo EX30 (a partir de R$ 239.950) oferece o peso de uma marca premium. A precificação do Suzuki parece desproporcional à autonomia e à percepção de valor, especialmente para um país de dimensões continentais e infraestrutura de recarga ainda incipiente. A sabedoria da Doutrina Social da Igreja, que insiste na justiça comutativa, lembra-nos que a equivalência na troca é um pilar da ordem econômica, e o consumidor, um agente com discernimento, não uma massa passiva a ser persuadida.
Mais incômoda ainda é a ênfase nas “aptidões fora-de-estrada” do novo Vitara. Um veículo elétrico com menos de 300 km de autonomia, destinado a trilhas onde a tomada mais próxima está a centenas de quilômetros, é um paradoxo que G. K. Chesterton certamente apreciaria com sua pena afiada. Ele talvez dissesse que é como oferecer um barco para navegar o deserto, esperando que o senso comum não questione a ausência do oceano. A falta de veracidade numa comunicação assim mina a confiança essencial para a perenidade de qualquer empreendimento. O marketing, ao invés de iluminar a realidade do produto, tenta turvá-la com um imaginário que não se sustenta.
O histórico de descontinuidade da Suzuki no Brasil não é um mero detalhe, mas um fardo a ser carregado. Gera desconfiança no consumidor quanto ao suporte pós-venda, à disponibilidade de peças e, crucialmente, ao valor de revenda futuro. Uma empresa, à luz de Leão XIII, não é apenas uma entidade econômica, mas uma comunidade de trabalho com deveres para com aqueles que nela confiam. A responsabilidade da continuidade do serviço, da garantia de um mercado secundário e da manutenção da rede de concessionárias é um imperativo de honestidade e laboriosidade, e não uma opção mercadológica. Pio XII, ao distinguir o “povo” da “massa”, advertia contra a tentação de tratar os indivíduos como meros números, sem considerar suas necessidades concretas e sua legítima expectativa de estabilidade e segurança.
O retorno da Suzuki é, portanto, um teste de magnanimidade. Não basta cumprir as normas; é preciso exceder a mera legalidade com a virtude da veracidade e da responsabilidade. A reestreia do Vitara elétrico, para ser um sucesso duradouro, deve ir além de uma resposta reativa a regulamentações e de uma aposta superficial na eletrificação. Precisa oferecer uma proposta de valor clara, justa e coerente com a realidade do consumidor brasileiro e com a história da própria marca. Caso contrário, será apenas mais uma interrupção em uma estrada já marcada por paradas.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.