Quando a melodia de um violino se faz estrondosa demais, a orquestra inteira padece. Há quem veja na política um palco para o monólogo do condutor, um lugar para a exaltação da própria voz e do próprio legado, onde a virtude se confunde com o feito pessoal e o país se curva à genialidade de um único regente. Assim soa a narrativa recente de um presidente que se anuncia como restaurador de uma glória perdida, um artífice exclusivo de números promissores, pronto para um quarto mandato se as circunstâncias assim o exigirem. Fala-se em inflação menor, massa salarial pujante, exportações recordes e um crescimento econômico reencontrado, como se a prosperidade brotasse unicamente da sua presença, desfazendo o “desastre” do que o precedeu.
Contudo, a sinfonia de uma nação é mais complexa do que o solo de um maestro, e as notas dissonantes não podem ser ignoradas. Por trás da aparente cadência dos indicadores macroeconômicos, ressoa o persistente eco do povo que vive “aquém da expectativa”, aprisionado por dívidas e por uma “jogatina” que o próprio presidente reconhece como descontrolada, mas para a qual as soluções ainda engatinham na fase da “discussão”. A exuberância retórica, que fala em “desbaratar mais de 10 milhões de bandidos” – um número assombroso que exige muito mais do que a mera contabilidade verbal –, não pode mascarar a necessidade de uma ordem pública fundada em dados transparentes e ações concretas, e não em hipérboles que esticam a credibilidade até o limite.
A Doutrina Social da Igreja nos adverte sobre os perigos de confundir o povo com a massa, de reduzir a política a um mero embate entre “nós” e “eles”, como se a “Faria Lima” e “o mercado” fossem inimigos intrínsecos de qualquer política de inclusão social. São Tomás de Aquino, com sua lucidez, ensina que a ordem social legítima depende da justa distinção de funções e da cooperação orgânica, onde cada parte contribui para o bem da cidade, sem que uma se anule em nome da outra. A autonomia das instituições, como o Banco Central, não pode ser objeto de desconfiança velada ou de ataques retóricos que minam a estabilidade e a atratividade para investimentos sérios, nem a imprensa deve ser rotulada como inimiga por fazer seu ofício. A verdade é um alicerce que não se dobra a narrativas convenientes; ela exige que os fatos sejam apresentados com honestidade, sem a caricatura que desqualifica o adversário ou simplifica a complexidade das interdependências globais.
A política externa, por sua vez, deve ser governada pela prudência e pelo realismo, e não por “paixões” que podem comprometer os interesses nacionais. Criticar líderes de potências globais enquanto se expressa solidariedade a regimes autoritários que negam liberdades fundamentais aos seus povos, como Cuba e Venezuela, gera uma tensão ética e estratégica que o Brasil não pode se permitir. A autossuficiência discursiva, que se coloca acima de todos os antecessores e projeta um futuro de “salto definitivo” condicionado à permanência de uma figura única, roça a tentação da soberba, esquecendo que o progresso é obra de muitas mãos e mentes, num contínuo esforço geracional. O verdadeiro líder, por contraste, não se define pela sua capacidade de se fazer insubstituível, mas por sua virtude em fortalecer as instituições e em preparar o caminho para que novos talentos floresçam, com base na veracidade e na humildade.
É preciso um movimento de conjunto, sim, para resolver a chaga do endividamento e para impor limites à “jogatina” que assalta o cotidiano das famílias. Mas este movimento não pode ser apenas uma discussão protelada; ele deve ser a aplicação da justiça distributiva e da temperança na vida econômica. Significa reforçar os corpos intermediários da sociedade, valorizar a propriedade difusa e não centralizar a solução apenas no Estado ou na figura presidencial. A superação dos desafios estruturais exige mais que a alternância de governos; demanda a construção de consensos e o diálogo respeitoso com todos os setores, incluindo o mercado e a oposição, que são parte integrante da partitura nacional.
O desafio imposto ao país não é o de entoar um coro uníssono em louvor a um único nome, mas o de edificar uma ordem social onde a orquestra da vida pública toque em harmonia, com cada instrumento reconhecendo a importância do outro. Uma liderança duradoura se constrói não pela grandiosidade das autocelebrações, mas pela modéstia dos serviços e pela sinceridade das promessas, forjando uma comunidade de fato, onde a verdade é o pão de cada dia.
Fonte original: Diário do Centro do Mundo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.