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Síntese de Identidades: Rótulos na Política e a Unidade Real

A política de ‘síntese’ de identidades reduz o cidadão a rótulo. Este artigo analisa o paradoxo da justaposição de perfis e como isso compromete a unidade real, à luz da Doutrina Social da Igreja.

🟢 Análise

A política, no seu ofício mais nobre, é a arte de buscar a unidade na multiplicidade, mas não raro se desvia para a engenharia de uma colcha de retalhos, onde a costura é mais aparente que o tecido. A recente sinalização de Marina Silva, que propõe uma chapa ao Senado em São Paulo construída sobre uma “síntese” de identidades – mulher preta e branca, evangélica e católica, do agro e ambiental – acende um farol sobre essa tensão fundamental. É um paradoxo, digno de ser notado, que se pretenda construir a unidade de um país precisamente ao fatiá-lo em categorias e depois as justapondo, como se a mera soma de perfis garantisse a coesão.

A preocupação legítima não reside na busca por representatividade, que é um valor em si e uma exigência de justiça social. O problema se instala quando marcadores identitários são instrumentalizados. A voz do eleitor não é apenas uma soma de rótulos; é a expressão de uma consciência, de um conjunto de valores e de uma visão de mundo. Quando a política foca em agregar perfis demográficos, ela corre o risco de reduzir o ser humano a uma etiqueta, tratando-o como meio para um fim eleitoral, e não como um fim em si. Isso é uma questão de veracidade e justiça na condução da vida pública.

A Doutrina Social da Igreja, ao defender a dignidade da pessoa humana, insiste que o ser humano não pode ser reduzido a uma mera categoria. Pio XII, em sua sabedoria, alertava para a distinção crucial entre “povo” e “massa”: enquanto o povo é um corpo orgânico, consciente de seus deveres e direitos, a massa é um aglomerado informe, facilmente manipulável. A “síntese” apregoada por Marina, embora bem-intencionada no desejo de superar divisões, parece mais um arranjo estratégico de fachada do que uma profunda convergência programática. O eleitorado não é um tabuleiro de xadrez onde cada peça tem apenas uma cor ou uma crença a defender; é um corpo vivo de cidadãos que anseia por honestidade nas propostas e coerência nos caminhos.

A ideia de harmonizar “agro” e “ambiental” na mesma chapa, por exemplo, não se resolve magicamente por um pacto de gênero ou fé. Exige clareza de princípios, propostas concretas e uma hierarquia de bens que defina a primazia do bem da cidade de longo prazo sobre interesses setoriais imediatos. Quando a chapa se anuncia como a “síntese” da nação em um paradoxo de opostos, surge a dúvida se a intenção é verdadeiramente unir ou apenas neutralizar tensões, diluindo compromissos em um amálgama retórico. O que se espera de um candidato não é que ele seja a soma aritmética de identidades, mas que ofereça um programa coerente e uma fortaleza moral para defendê-lo.

O perigo é que a superfície do discurso da união mascare a ausência de uma verdadeira ordem social, onde as partes – partidos, indivíduos, grupos de interesse – colaborem para um fim comum e não apenas se utilizem mutuamente para o acesso ao poder. O princípio da subsidiariedade nos lembra que a vida política se constrói na proximidade, nos corpos intermediários que não são esmagados, onde as identidades podem florescer em associações livres sem serem engolidas por uma lógica centralizadora ou por um discurso que homogeneíza pela via do símbolo vazio.

A política, para ser virtuosa, deve ter a veracidade como sua estrela-guia. A verdadeira unidade não se obtém justapondo rótulos, mas encontrando e fortalecendo os laços de verdade e bem que já existem entre as pessoas, independentemente de suas diferenças superficiais. Um pacto eleitoral que se apresenta como a solução para a “divisão e o ódio” pela mera agregação de perfis sociodemográficos pode ser um convite à inautenticidade, transformando a complexidade da sociedade em um mero conjunto de dados a serem gerenciados para maximizar votos. O que se edifica sobre a aparência, corre o risco de desabar à primeira prova real de coerência.

A força de uma chapa não reside na engenharia de perfis, mas na fundação sólida de princípios que, por sua verdade intrínseca, convidam a todos a edificar uma ordem justa.

Fonte original: Jornal Diário do Grande ABC

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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