Na passarela da vida pública, por vezes, um grande espetáculo de arquitetura e intenção visionária esconde a fragilidade de seu enredo. A história do Sambódromo do Rio de Janeiro é um desses dramas brasileiros, onde a promessa de uma “nova civilização, mestiça e tropical” colidiu com a dura realidade de um projeto educacional ambicioso, mas de difícil sustentação. Idealizada por figuras como Darcy Ribeiro, Leonel Brizola e Oscar Niemeyer, a passarela, inaugurada em 1984, carregava consigo uma dualidade fundamental: ser o palco maior do Carnaval e, ao mesmo tempo, abrigar um Centro Integrado de Educação Pública (CIEP), um ponto de luz para as crianças.
A intenção era nobre. Darcy Ribeiro, figura de notável legado na educação brasileira — da Universidade de Brasília aos próprios CIEPs —, via na estrutura não apenas a grandiosidade estética de Niemeyer, mas uma oportunidade de enraizar a formação na cultura popular, de aliar o espetáculo da rua à disciplina da sala de aula. Contava-se, ademais, com o argumento econômico: a construção definitiva do sambódromo livraria o erário público dos custos anuais de “monta e desmonta” de arquibancadas provisórias, que seriam praticamente equivalentes ao valor da obra perene. Era, na visão dos seus promotores, um investimento em cultura e educação.
O embate com as Organizações Globo, que se opuseram veementemente à obra e chegaram a boicotar a transmissão do Carnaval em solidariedade à sua crítica, é um capítulo à parte. Embora a narrativa da imprensa possa ter sido um palco para a disputa política e a luta por audiência — com a TV Manchete a aproveitar a recusa da Globo e o sucesso subsequente do Carnaval —, reduzir a questão do Sambódromo a uma mera batalha midiática seria simplificar demais a complexidade da empreitada. A controvérsia, por mais ruidosa que fosse, apenas tangenciava a real questão de fundo: a viabilidade da ideia original.
Ora, é típico de certa modernidade, como Chesterton bem notaria, essa tentação de fundar a escola – que é o alicerce mais sólido e ordinário de uma nação – não na simplicidade da comunidade, mas na monumentalidade do palco. O grande desafio, silenciado pela euforia da inauguração e pela retórica de uma “nova civilização”, residia na própria natureza da integração de um CIEP a uma estrutura primariamente pensada para eventos de massa e sazonalidade intensa. Uma escola exige estabilidade, continuidade, um ambiente de paz e concentração. Um sambódromo, por sua vez, é um espaço de interrupção, transformação e frenesi. Como sustentar, a longo prazo, a eficácia pedagógica de um ambiente escolar que se veria anualmente sujeito a intensas adaptações para receber a folia, com as interrupções e demandas logísticas inerentes? A Doutrina Social da Igreja, ao defender a subsidiariedade, recorda que a educação é um dever primário da família e da comunidade, demandando estruturas que sirvam concretamente ao desenvolvimento da pessoa, e não a uma visão de Estado que constrói de cima para baixo.
A veracidade exige que avaliemos a distinção entre a grandiosidade de um ideal e a responsabilidade na sua execução. A promessa de Darcy Ribeiro de “florescer amanhã como uma nova civilização” clama por um plantio cuidadoso hoje, em solo adequado. Não basta a visão; é preciso o cálculo moral e a engenharia social que garantam a sustentabilidade do que é plantado. A falta de um plano de gestão robusto, capaz de conciliar as duas funções do Sambódromo após o governo Brizola, não pode ser atribuída apenas ao “descaso do poder público”, como se o projeto não contivesse em si uma fragilidade estrutural. A vocação monumental do Sambódromo, ao invés de ser um motor para o CIEP, parece ter eclipsado suas necessidades práticas.
A realidade atual, com o CIEP do Sambódromo funcionando apenas como creche, é a prova amarga de que a boa intenção não substitui a boa execução. É o atestado de que, por vezes, a estética do grandioso e a visão de uma sociedade idealizada podem ofuscar a prudência e a justiça para com os verdadeiros destinatários da ação pública: as crianças e suas famílias, que dependem de uma educação estável e efetiva, e não de um cenário mutável.
Construir o futuro não é erguer monumentos retumbantes para justificar um presente grandiloquente; é antes garantir que os tijolos do cotidiano, nas escolas e nas famílias, sejam assentados com a firmeza da verdade e a paciência da boa vontade.
Fonte original: SRzd
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.