A disputa verbal entre o Presidente da República e a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) é mais do que um embate político passageiro; é um espelho de uma tensão profunda que aflige as democracias: como combater a corrupção sem minar as próprias estruturas da vida comum? Ao associar a instituição legislativa fluminense à milícia e seus membros a “ladrões organizados”, o Presidente Lula lança uma acusação pesada, ancorada, de fato, em condenações do TSE que atingiram figuras proeminentes, como o ex-governador e o então presidente da própria Alerj, por fraude eleitoral e abuso de poder. A gravidade da infiltração criminosa e da corrupção nos aparelhos de Estado, sobretudo no Rio de Janeiro, é um problema real, uma chaga que clama por ação decisiva e intransigente.
É legítima a preocupação com a probidade nas instituições, e as sentenças judiciais contra parlamentares são um sinal inequívoco de que a máquina pública, em alguns pontos, foi pervertida. A Doutrina Social da Igreja, ao falar da ordem dos bens, sempre aponta para a indispensável virtude da honestidade na gestão da coisa pública e para a necessidade de que o poder político seja um serviço ao povo, e não um meio para ganhos ilícitos. Nesse sentido, a denúncia da corrupção é um dever de justiça.
Contudo, a mesma justiça que exige a punição dos culpados proíbe a generalização sumária que macula a instituição inteira. A Alerj, em sua nota, não erra ao cobrar respeito e afirmar-se como uma instituição democrática e legítima. É crucial distinguir o povo de uma massa indiferenciada, como ensinou Pio XII. A Assembleia, como corpo representativo, é composta por muitos que, presumivelmente, exercem seu mandato com retidão. Reduzir a totalidade de um parlamento à sombra de alguns de seus membros condenados não apenas injusto, mas perigoso. Tal retórica, embora possa ter a intenção de galvanizar o combate à corrupção, acaba por minar a confiança pública no próprio arcabouço institucional, um pilar essencial para a liberdade ordenada que Leão XIII tanto defendia.
A lógica da ideologia, por vezes, é a de derrubar a casa inteira para reformar uma janela quebrada. Chesterton, em seu paradoxo sobre a cerca, adverte sobre o perigo de remover uma estrutura existente sem compreender a razão de sua existência original. Uma instituição, por mais que tenha seus vícios e seus maus operários, representa uma forma de organização da vida comum que não deve ser descartada com leviandade retórica. A destruição da confiança nas estruturas representativas pode abrir caminho para soluções autoritárias, muito mais danosas ao bem da cidade.
A justiça aqui opera em duas frentes: exige a punição exemplar dos indivíduos corruptos e a reabilitação da integridade institucional, mas demanda também a veracidade na comunicação, que evite o uso de ataques indiscriminados. A Alerj, por sua vez, enquanto defende sua dignidade institucional, tem o dever moral e político de demonstrar com ações concretas um compromisso irrestrito com a probidade, além de uma autocrítica severa sobre os mecanismos que permitiram a ascensão e a permanência de quadros comprovadamente envolvidos em desvios.
O verdadeiro combate ao crime organizado e à corrupção não se dará apenas com declarações incendiárias ou com contra-ataques defensivos, mas com uma ação coordenada que fortaleça os corpos intermediários da sociedade, que promova a transparência radical e que resgate a ética pública. É preciso que tanto o Executivo federal quanto o Legislativo estadual, superando a polarização estéril, se engajem em um diálogo construtivo e em políticas públicas de longo alcance para resguardar a ordem moral, sem a qual nenhuma liberdade se sustenta. A paz social não nasce da desconfiança mútua, mas da responsabilidade compartilhada na construção de instituições íntegras.
Fonte original: Poder360
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.