Uma medalha de ouro, reluzente sob os holofotes globais, celebra uma professora brasileira. Seu projeto, a “robótica com sucata”, é um testemunho vívido da inventividade e da dedicação que podem florescer mesmo em solo adverso, transformando lixo em oportunidade e desafios sociais em aprendizado. O reconhecimento pela Fundação Varkey, o “Nobel da Educação”, e o convite de um presidente em meio à guerra para compartilhar tal sabedoria, são, por si só, um hino à capacidade humana de transcender as circunstâncias. Mas, por trás do brilho do pódio, paira uma questão incômoda: que tipo de sociedade celebramos quando a genialidade da “sucata” é promovida ao mesmo tempo em que as fundações mais elementares da dignidade humana e educacional permanecem em ruínas?
A narrativa de Débora Garofalo, de fato, é inspiradora. Em uma escola da periferia paulistana, onde o lixo provocava enchentes e doenças, ela viu matéria-prima para o conhecimento. Enfrentou desconfiança de alunos (“robótica não é para a gente”) e resistência de colegas e gestores. Em três anos e meio, mobilizou a comunidade, coletou uma tonelada de recicláveis, e viu seu projeto tornar-se política pública em mais de cinco mil escolas. É a prova cabal de que a criatividade pedagógica, quando aliada a uma laboriosidade incansável, pode florescer onde menos se espera. Ela demonstrou a capacidade de uma iniciativa de base, nascida da realidade local, de gerar um bem para a cidade. No entanto, o louvor à engenhosidade da “sucata” não pode nos fazer esquecer que ela nasceu da falta, de uma privação que o Estado deveria ter remediado há muito.
Aqui reside o paradoxo que Chesterton, em seu gênio perspicaz, talvez apontasse: a modernidade adora celebrar a virtude que emerge da escassez, sem questionar por que essa escassez ainda existe. É louvável que uma criança aprenda a fazer uma lanterna com sucata em meio a bombardeios, mas é deplorável que a ausência de luz seja uma condição estrutural. No Brasil, país que gera heróis da “robótica com sucata”, quase metade das escolas públicas ainda não possui saneamento básico. Setenta por cento dos estudantes da rede pública não têm acesso à conectividade em casa. A celebração da improvisação, nesse contexto, pode inadvertidamente legitimar a ausência de infraestrutura robusta, perpetuando a ideia de que a educação para os vulneráveis deve ser “de baixo custo”, em vez de exigir investimentos massivos em tecnologia de ponta e ambientes de aprendizado dignos.
Quando um projeto individual se eleva à condição de política pública, a questão da justiça se impõe com força. Como garantir que a experiência singular, nascida da dedicação quase heroica de uma única professora, seja replicada em 5.400 escolas heterogêneas sem diluir sua qualidade ou sobrecarregar professores que não têm o mesmo reconhecimento e apoio? A virtude da subsidiariedade nos lembra que o Estado deve apoiar, e não absorver ou esmagar, as iniciativas da sociedade civil, mas também que ele tem um dever primário de prover as condições fundamentais. A Doutrina Social da Igreja, ao defender a “educação por missão”, postula que a escola deve ser um ambiente de formação integral, onde a falta de saneamento ou de acesso digital não seja uma “oportunidade para a criatividade”, mas uma falha inaceitável na ordem justa.
A implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) da Computação em um país com tamanho abismo digital revela a fragilidade desse planejamento. Se a própria professora Débora defende a limitação do uso de celulares na escola – uma medida de temperança para o ambiente educacional –, mas advoga o currículo de tecnologia, como podemos esperar que a “robótica com sucata” seja um substituto para a conectividade e o acesso a ferramentas digitais avançadas? A verdade é que a sucata, por mais engenhosa que seja, não preenche a lacuna do acesso à informação, da pesquisa em rede ou do letramento digital que o mundo contemporâneo exige. Ela pode ser uma ponte, sim, mas não o destino final. O Estado, no seu dever de justiça para com todos os cidadãos, não pode contentar-se com a criatividade nascida da pobreza como seu principal pilar de política educacional.
O afastamento de Débora da sala de aula para atuar como consultora e formadora levanta, por fim, a legítima preocupação sobre como sua visão permanecerá ancorada na realidade dos professores que, diariamente, enfrentam a batalha da falta. A magnanimidade de seu projeto inicial deve ser a força motriz para uma cobrança incansável por reformas estruturais, e não um pretexto para desviar o olhar do que falta. A veracidade, nesse contexto, exige que a celebração da excelência individual não seja usada para mascarar as deficiências sistêmicas que negam a milhões de crianças o direito a uma educação justa e integral.
A lição da “robótica com sucata” não é a de que a miséria é fértil, mas a de que a esperança é teimosa. É um grito de que, com vontade e inteligência, podemos fazer muito com pouco. Mas a verdadeira justiça começa quando nenhum professor precisa mais depender da sucata para ensinar, porque o solo da educação já foi adubado com a infraestrutura, o financiamento e o apoio digno que cada criança e cada educador merecem.
Fonte original: R7 Notícias
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.