A oratória política, em sua essência mais nobre, assemelha-se à arte de manusear um vaso de porcelana fina: exige firmeza, mas também uma delicadeza que só o discernimento mais apurado pode oferecer. As recentes declarações do Presidente da República, delineando um tabuleiro geopolítico com traços fortes e críticas diretas a líderes e nações, revelam uma intenção de defender a soberania e o multilateralismo, pontos que, em si mesmos, merecem acolhimento e reflexão. Quem não anseia pela paz em cenários de guerra “inconsequente” ou não se preocupa com o impacto de conflitos distantes sobre o preço do feijão na mesa brasileira? E quem, em sã consciência, não defende a independência de um processo eleitoral nacional contra intromissões externas, venham de onde vierem?
Contudo, a rota traçada por essas palavras do mais alto posto da na República não pode ser indiferente aos ventos da responsabilidade que governam a diplomacia e a própria coerência da ação política. A defesa da soberania, um bem fundamental da comunidade política, não se constrói apenas com a veemência da denúncia, mas com a solidez de uma estratégia que saiba distinguir o princípio permanente da aplicação contingente. É legítimo apontar a assimetria de poder nas relações internacionais e condenar a ocupação de territórios que desrespeita resoluções da ONU. Mas, nesse exato ponto, a palavra do chefe de Estado se torna uma espada de dois gumes: pode reafirmar a justiça internacional ou, descalibrada, comprometer a busca pragmática por aliados e a própria eficácia da influência brasileira no cenário global.
É a distinção entre o povo de Israel e o governo de Benjamin Netanyahu, por exemplo, um acerto notável de Pio XII ao nos alertar sobre a diferença entre o “povo” e a “massa”, entre a identidade profunda de uma nação e as ações de seus governantes. Mas quando se categoriza um líder estrangeiro como “o tipo de político que faz mal à humanidade”, sem apresentar a devida contextualização ou provas robustas que o justifiquem para além do campo ideológico, corre-se o risco de inflamar paixões e de confundir os interlocutores, colocando em xeque a própria comunidade judaica, seja ela no exterior ou, o que é mais grave, dentro de nossas fronteiras. A retórica não pode, por sua seletividade, sugerir a complacência com outros regimes que igualmente desrespeitam direitos humanos ou soberanias nacionais, como se a balança da crítica devesse pender apenas para um lado do espectro geopolítico.
A acusação de que “adversários têm um filho lá” pedindo intervenção americana nas eleições brasileiras, sem nomear os envolvidos ou apresentar provas concretas, não apenas enfraquece a própria denúncia, como joga para o debate público uma suspeita que, de tão grave, exige o mais absoluto rigor na veracidade. A defesa intransigente da soberania nacional contra a intromissão estrangeira — um pilar da Doutrina Social da Igreja desde Leão XIII, que via na família e, por extensão, na nação, uma sociedade primeira e inviolável — perde força quando as bases factuais de sua defesa se mostram tão precárias. A palavra presidencial não é mera opinião; ela é ato que move a nação e que compromete o futuro, devendo sempre ser lastreada pela reta razão e pela prudência política.
Há, certamente, uma tensão entre o ideal de um sistema multilateral mais justo e a realidade de um mundo fragmentado, onde potências agem segundo seus próprios interesses. O paradoxo é que, ao abraçar uma retórica de confronto e polarização — por vezes simplificando conflitos complexos a uma lógica unilateral de culpados e vítimas — o Brasil, em vez de consolidar sua posição como voz relevante na construção da paz, pode se ver isolado, enfraquecendo sua capacidade de mediar e de construir pontes. Como, afinal, pode-se esperar uma cooperação efetiva com os Estados Unidos no combate ao crime organizado e ao narcotráfico, se a liderança americana é alvo de ataques tão pessoais e generalizados, sem que se ofereça um caminho para o diálogo construtivo?
A busca pela estabilidade do preço do pão e do feijão no Brasil, legítima e urgente, exige mais do que a denúncia de guerras distantes; exige uma diplomacia que saiba navegar com destreza pelas águas turbulentas da economia global, garantindo parcerias estratégicas e a manutenção de canais de diálogo, mesmo com aqueles que se criticam. A casa comum brasileira não se sustenta apenas pela força de seu telhado, mas pela solidez dos alicerces que garantem sua inserção prudente e eficaz no concerto das nações.
A voz do presidente tem o poder de unir ou de cindir, de edificar ou de demolir. Para que sirva verdadeiramente aos interesses mais profundos e duradouros da nação, essa voz precisa ser a de um construtor, que escolhe suas pedras e seu cimento com sabedoria, e não a de um polemista que, por vezes, quebra um vaso de porcelana que levará tempo e custo para ser reparado.
Fonte original: O Cafezinho
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.